Título: Pós-crise impõe novos desafios, dizem analistas
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 22/09/2009, Brasil, p. A4

O mercado interno robusto, as reservas internacionais elevadas e a situação razoável das contas externas e fiscais permitiram ao Brasil superar a crise sem grandes traumas, mas o momento agora é de se preparar para enfrentar os desafios que podem impedir um crescimento a taxas mais fortes, avaliaram empresários e economistas presentes ao 6º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A baixa taxa de poupança interna, a perda de competitividade da indústria manufatureira e a tendência de valorização exagerada do câmbio aparecem como questões que o país tem de se defrontar para garantir uma expansão mais robusta ao longo dos próximos anos.

O presidente do Conselho de Administração do Grupo Ultra, Paulo Cunha, destacou que o "Brasil sairá da crise carregando as mesmas virtudes e os mesmos defeitos" com que entrou. Para ele, a rápida recuperação se deve "em parte, a uma pronta reação do governo federal, através de desonerações fiscais e socorro financeiro rápido".

A partir de agora, porém, os desafios são outros. O país terá de se haver com um mundo em que haverá menos mercado para as exportações e um cenário menos favorável para o investimento, por causa das incertezas quanto ao futuro e da redução do financiamento. Os EUA vão ter de continuar a corrigir seus desequilíbrios, o que significa que o consumo americano não vai mais sustentar o crescimento global como fez por muito tempo, diz Cunha.

Para ele, o Brasil entra nesse mundo pós-crise com problemas como o tamanho excessivo do Estado, a "infraestrutura em decadência" e um "dos piores ensinos básicos do mundo". Para complicar, a indústria tem dificuldades de competição nos segmentos mais dinâmicos do comércio global, como os de química, equipamentos, material de transporte e eletroeletrônicos. "O que é ainda mais grave é que a atual estrutura de produção industrial apresenta menor peso desses segmentos do que em 1985, o que significa que ela involuiu." Para Cunha, "sem a solução dessas questões, o Brasil terá sua trajetória futura afetada diretamente pela crise internacional e continuará possivelmente a crescer menos do que o mundo, como faz desde 1980".

O diretor da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da FGV, Yoshiaki Nakano, vê o Brasil com a oportunidade de fazer uma transição de uma economia emergente para desenvolvida. Segundo ele, o país fez avanços importantes nos últimos anos, como a mudança da "política econômica com foco só na estabilidade para estabilidade e crescimento" e a percepção de que há setores capazes de gerar um grande programa de investimentos para puxar o crescimento por décadas, como o imobiliário.

Para completar a transição, porém, será preciso enfrentar aumentar a poupança interna, o que pode ser feito pela redução de gastos correntes do governo e pela adoção de uma taxa de câmbio competitiva. "Também é preciso trazer a fronteira tecnológica para o país", disse Nakano, o que se faz por meio da maior abertura comercial. Um país que importa mais e exporta mais tem acesso a novas tecnologias e consegue absorvê-las.

O professor Paulo Gala, também da EESP-FGV, considera fundamental é mudar o nível da taxa de câmbio, para induzir um aumento da poupança. Segundo ele, um câmbio competitivo estimula exportações e a produção doméstica, levando ao aumento da renda e os lucros das empresas, sendo a principal fonte da poupança interna.

O professor Samuel Pessôa, da FGV do Rio, acha difícil o Brasil chegar a um modelo de aumento forte da poupança interna. Por escolhas da sociedade, como um sistema previdenciário generoso, o país poupa pouco. Nesse cenário, terá de contar com mais poupança externa para crescer, ou seja, com déficits em conta corrente, e um câmbio mais valorizado, avalia Pessôa.

A boa notícia, segundo ele, é que hoje parece possível manter rombos um pouco mais elevados nas transações de bens, serviços e rendas com o exterior. Dadas as características da economia brasileira - a carência de poupança, a possível maior facilidade de financiamento externo e as vantagens comparativas em produtos primários -, o Brasil se encaminha para ser uma economia com "forte especialização" em commodities e serviços, afirmou Pessôa, ressaltando que não está defendendo esse modelo, mas que o vê como o resultado mais provável para os próximos anos. (SL)