Título: O quebra-cabeças mundial
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Fonte: Valor Econômico, 25/09/2009, Opinião, p. A15

A aceitação do multilateralismo pela China; o crescente desafio do Oriente Médio ao poder do Ocidente e, especialmente, dos Estados Unidos; os esforços de Barack Obama para modelar novas regras para o jogo mundial; e o recuo da Europa a uma influência marginal foram os fatos marcantes desta semana

De Nova York a Pittsburgh, foi possível ouvir o estalar e retorcer das placas geopolíticas. Os recentes encontros da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Grupo dos 20 (G-20) deixam o novo cenário mundial como um trabalho ainda inacabado. Alguns dos contornos, entretanto, aparecem em alto relevo.

No meu entender, quatro coisas se sobressaíram da congregação de montes de sumidades nesta semana: a aceitação, relutante, do multilateralismo pela China; o crescente desafio do Oriente Médio ao poder do Ocidente e, especialmente, dos Estados Unidos; os esforços de Barack Obama para modelar novas regras para o jogo mundial; e o recuo da Europa a uma influência marginal.

Hu Jintao arrebatou muitas das manchetes ao suavizar sua posição sobre as mudanças climáticas. O compromisso do presidente chinês de reduzir a intensidade das emissões de gás carbônico não é garantia de um acordo em Copenhague. Mas, a iniciativa de Hu mostrou uma mudança na forma como o governo chinês se relaciona com o mundo.

Pequim, enfim, reconhece o fato de ser protagonista no cenário mundial. Há um ano, mais ou menos, a China ainda se aferrava a um papel passivo nos assuntos internacionais. As pressões ocidentais para que agisse como um participante responsável no sistema multilateral deparavam-se com protestos de que tais exigências eram prematuras: a China ainda era um país em desenvolvimento e prezava a não interferência, colocando-a acima dos conceitos ocidentais de dependência mútua.

A crise econômica mundial virou essa estratégia de ponta-cabeça, ao mostrar que Pequim não pode descolar seus interesses internacionais dos domésticos. É verdade que a China teve uma crise "boa", demonstrando que pode continuar em crescimento enquanto o Ocidente está em recessão. O declínio de suas exportações, contudo, serviu como um poderoso lembrete dos laços indissolúveis tecidos pela globalização.

Essa interdependência é dada como algo certo nas capitais ocidentais. Para Pequim, carrega a incômoda implicação de que os Estados possuem um interesse legítimo na formação das políticas domésticas dos outros.

Mas nada disso quer dizer que a China vá se tornar um ponto fácil no jogo diplomático internacional. Porém, o país começou a compreender a importância do "poder suave". Trocou suas espinhosas respostas a qualquer coisa que soasse parecido a uma interferência em seus assuntos por esforços para fazer amizades e influenciar pessoas.

O desafio ao Ocidente vindo do Oriente Médio foi simbolizado pela presença malevolente em Nova York de Mahmoud Ahmadinejad, do Irã. A mudança do equilíbrio de poder, entretanto, vai além das ambições nucleares do Irã e da negação do Holocausto por seu presidente. O poder dos EUA na região vem sendo minado pela guerra contra o Iraque, a insurgência no Afeganistão e a consequente percepção entre os Estados árabes de que Washington não tem condições de mostrar resultados.

Por ironia, nessa semana, essa perda de status ganhou tons mais concretos do aliado mais próximo dos EUA na região. Benjamin Netanyahu, de Israel, rejeitou o pedido de Obama para que o país suspenda a expansão dos assentamentos em território palestino ocupado. A rejeição direta pelo primeiro-ministro israelense sinalizou que ele, também, vê os EUA como um poder em declínio. A única forma de o presidente dos EUA recuperar sua autoridade seria estabelecer publicamente os parâmetros de Washington para um acordo final entre Israel e os palestinos. A questão é se ele assumirá esse risco.

Os EUA, é claro, continuam como única superpotência mundial, mais poderosos que seus rivais em qualquer aspecto. Se Washington nem sempre consegue fazer do seu jeito, as outras nações não se mostram nem perto de estar preparadas para substituí-la como garantidor da segurança mundial. Dito isso, o apelo de Obama para que o resto do mundo compartilhe os encargos da liderança foi uma maneira elegante de admitir que os EUA são uma superpotência insuficiente.

Para ser justo com o presidente dos EUA, ele tem ciência disso já há algum tempo. Há método em sua diplomacia e nos esforços para restaurar a autoridade das instituições internacionais desprezadas por seu antecessor na Casa Branca. O exercício efetivo do poder dos EUA exige legitimidade; e para ter legitimidade é preciso que os EUA aceitem as regras aplicadas a outros. O esforço dos EUA para ressuscitar o tratado de não proliferação nuclear é um passo tangível nessa direção.

A tarefa de Obama não fica mais fácil apenas por ter admitido esses fatos da vida geopolítica. A questão levantada em Washington tanto por aliados como por oponentes é, se todos gostam tanto de Obama, por que ele não está conseguindo o que deseja? A resposta é daquelas intragáveis para uma superpotência habituada a vencer: o mundo não é mais o que costumava ser.

A marginalização da Europa vem se cristalizando há muito tempo, embora seus líderes gostem de fingir que não. Nesta semana, Nicolas Sarkozy, mais uma vez, ficou na ponta dos pés para conseguir ser ouvido. Ele quer outro encontro mundial em novembro. O problema é que o incansável ativismo do presidente francês parece ter se tornado um fim por si só.

Gordon Brown não está se saindo nada melhor. Na primavera setentrional, ele reivindicou um papel de destaque no combate à crise financeira. À medida que a ameaça de armagedon econômico diminui, o mesmo ocorreu com o resplendor de Brown. Nesta semana, o fustigado primeiro-ministro combatia manchetes dizendo que ele foi esnobado por Obama.

Uma Angela Merkel invisível poderia alegar que sua atenção foi desviada pela eleição alemã deste fim de semana. A chanceler (primeira-ministra), contudo, há muito prossegue com uma política externa que poderia ser melhor descrita como uma inércia calculada. Aliados da Alemanha albergam esperanças de que uma vitória nas eleições poderia permitir que Merkel desempenhasse um papel mais criativo. São esperanças, no entanto, e não expectativas.

Falta qualquer coisa que se pareça a uma visão europeia do que está por vir. Mesmo na questão das mudanças climáticas, na qual a União Europeia teve grande participação nos esforços iniciais, sua influência agora é eclipsada pelas conversas sobre uma grande negociação entre Washington e Pequim. Os europeus conseguiram, na figura de Obama, o presidente dos EUA que sempre desejaram. Porém, mais preocupados em ater-se ao presente do que a reformular o futuro, eles não pensaram no que fazer a seguir.

Some todas essas tendências e nos deparamos com o quebra-cabeça global. Os otimistas verão no recém-descoberto realismo americano e no cauteloso multilateralismo da China uma chance de montar as peças de uma nova ordem geopolítica. Os pessimistas dirão que há tantas mãos embaralhando o quebra-cabeça quanto tentando resolvê-lo. O sucesso ou fracasso em Copenhague dará uma importante pista sobre qual lado está certo.

Philip Stephens é articulista do FT.