Título: Vale vai manter independência e focar na mineração
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Fonte: Valor Econômico, 25/09/2009, Empresas, p. B5

A Vale não vai abrir mão da mineração como atividade principal. Esse é o pensamento vigente na empresa, além do objetivo de sempre buscar resultados para seus acionistas. Enquanto os projetos de investimento propostos pelo presidente Lula à companhia coincidirem com a política de rentabilidade da empresa eles serão levados à frente. A mineradora lembra que tem uma governança como empresa de capital aberto, milhares de acionistas e uma estratégia traçada pelo conselho de administração da qual não pode fugir. "Qualquer alteração de voo tem que ter o aval dos acionistas", disse José Carlos Martins, diretor de Ferrosos da Vale em entrevista ao Valor.

Nos últimos meses, a companhia foi alvo constante de notícias de que o governo federal não está satisfeito com a administração do seu atual presidente, Roger Agnelli. E não faltam boatos sobre sua saída do cargo. Desde a demissão de mais 1,3 mil funcionários, logo após a deflagração da crise financeira internacional, o governo azedou com a mineradora. O descontentamento tem se manifestado através de pressões sobre a política de investimentos da empresa.

Criticada por não verticalizar sua produção mineral, a Vale recebeu pedidos oficiais para investir cada vez mais em projetos na área siderúrgica. Até reclamações do segundo escalão do Executivo, de que a empresa não paga impostos, já circularam na imprensa. A elas se unem reclamações em torno de encomendas feitas pela companhia para construção de navios na China.

Até agora, porém, nada disso afetou as ações da empresa. "As ações da companhia têm subido. Depois de atravessarmos um período muito difícil com a crise mundial, quando tivemos grandes quedas nas vendas de minério a partir de outubro de 2008, os últimos números são positivos. Estamos neste segundo semestre operando em nível de atividade próximo ao que existia antes da crise, de vendas de 25 milhões de toneladas de minério ao mês, apesar da queda no preço do produto e de metálicos como níquel e cobre", informou Martins.

Ele avalia que a alta do valor da ação da Vale está antecipando a recuperação do mercado de commodities. "O fenômeno não é isolado da Vale", diz. O diretor diz que no primeiro semestre a mineradora trabalhou em ritmo de produção anual de 200 mil toneladas de minério de ferro e agora, neste segundo, já sinaliza um ritmo de capacidade máxima de 300 mil toneladas no ano. "Mas é difícil fazer estimativas no momento", afirma.

O executivo informa que o foco na mineração, incluída aí a logística, é definido pela estratégia de negócios da Vale, aprovada anualmente pelo conselho de administração da empresa, presidido no momento pelo presidente da Previ, Sérgio Rosa, a maior acionista controladora da Vale. "Qualquer mudança nos rumos dos investimentos é da competência dos acionistas, o que não impede o presidente da República e o governo de expor seus desejos e suas intenções para com a companhia", afirma Martins. Ele reconhece que a Vale é uma empresa inserida no contexto brasileiro e que depende muito do Estado para atuar.

"Nossas áreas de atuação no Brasil são definidas por concessões, sejam na área mineral, de ferrovia ou de portos. Não podemos, a administração da companhia e seus acionistas, ouvir tais colocações e não considerá-las", destaca. Mas ele lembra que tais demandas têm sempre de ser analisadas sob o contexto de uma empresa privada que tem de prestar contas a seus acionistas.

No caso específico da indústria siderúrgica, o diretor da Vale afirma que a política traçada pela diretoria executiva e aprovada pelo conselho estabelece como modelo de negócio o "investment for trade", ou seja, investir para negociar, leia-se vender minério. "É assim que operamos nessa área", diz. Como o mercado brasileiro de aço é pequeno, a Vale desenvolve projetos siderúrgicos no país com usinas nacionais ou estrangeiras onde é sempre minoritária. O objetivo das parcerias é ganhar clientela para o minério. Até agora, apesar das pressões oficiais, a estratégia não mudou. "A Vale continua trabalhando para desenvolver projetos siderúrgicos em todo o Brasil para vender mais minério."

Os desafios adicionais que o governo coloca para Vale são vistos pelo executivo como positivos. "O governo sabe que a Vale é uma empresa que realiza", diz. Ele não vê conflito entre o interesse do governo e o da empresa. "O próprio presidente Lula disse que o que existe entre governo e Vale é uma 'pseudo divergência'. Acho que é isso."

Martins não quis se manifestar sobre a investida do empresário Eike Batista para ser sócio da Vale. "É assunto dos acionistas". Sobre os rumores da saída de Agnelli do comando da mineradora, ele é lacônico: "O cargo dos administradores é da empresa e do conselho de acionistas. Ele é soberano para decidir sobre isto. Mas em nenhum momento este assunto foi colocado", afirma.