Título: BC projeta piora do déficit externo
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Fonte: Valor Econômico, 25/09/2009, Finanças, p. C10

A saída do Brasil da crise está tendo dois impactos distintos sobre as contas externas do país. De um lado, o volume de investimento estrangeiro direto (IED) se mantém firme e deve acelerar no próximo ano. De outro, o saldo em transações correntes, uma medida de solvência das contas externas, deve piorar daqui em diante, resultado do aumento das importações e das remessas de lucros e dividendos ao exterior.

Em agosto, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC), o déficit em conta corrente foi de US$ 821 milhões, quase a metade do esperado pela instituição.

Dois fatos surpreenderam o Banco Central, concorrendo para um resultado menos negativo no mês passado - o ingresso no país de US$ 289 milhões a título de lucros e dividendos remetidos por empresas brasileiras no exterior e o saldo da balança comercial, de US$ 3,059 bilhões, um valor superior ao esperado. A tendência, no entanto, é de piora do saldo em conta corrente.

De janeiro a agosto, o déficit foi de US$ 9,560 bilhões, valor que deverá chegar até o fim do ano, segundo previsão do BC, a US$ 18 bilhões - antes, a estimativa era que chegasse a US$ 15 bilhões. Para 2010, o Banco Central está prevendo um déficit em conta corrente de US$ 29 bilhões, praticamente o mesmo valor de 2008. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), porém, o resultado deverá ser melhor que o daquele ano - 2,31%, face a 2,86%.

A recuperação da economia explica a esperada deterioração do saldo em conta corrente. Em momentos de maior crescimento, as empresas aumentam as importações de bens e serviços para suprir a demanda interna. As companhias estrangeiras, por sua vez, lucram mais e, assim, elevam as remessas ao exterior.

"Estamos observando um resultado de transações correntes e a expectativa é de um déficit um pouco mais forte, principalmente por força de importações mais elevadas, assim como os pagamentos relativos a rendas e serviços, principalmente de lucros e dividendos", explicou ontem o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, que não está preocupado com as perspectivas nessa área. "(Os números) contemplam um nível de atividade bem mais forte, mas a expectativa que se tem para o financiamento do déficit também aumentou."

De fato, as remessas de lucros e dividendos apresentam tendência de alta. No ano passado, totalizaram US$ 33,875 bilhões. Em grande medida, isso ocorreu porque, com a crise financeira internacional, as filiais de multinacionais foram obrigadas a remeter mais dólares às suas matrizes para cobrir prejuízos.

Neste ano, até agosto, foram remetidos US$ 14,505 bilhões e o BC acredita que o total aumentará para US$ 22,3 bilhões. Em 2010, estima-se remessa de US$ 26 bilhões.

As remessas são a outra face de um fato positivo: o ingresso de investimentos estrangeiros no país. Na vertente financeira, ou seja, os investimentos em ações negociadas na bolsa brasileira e em títulos, eles cresceram de forma surpreendente em agosto - apenas naquele mês, ingressaram US$ 6,141 bilhões; no ano, entraram US$ 15,169 bilhões.

O Banco Central estima que o total de ingressos em 2009 deve chegar a US$ 22 bilhões, bem acima dos US$ 3 bilhões previstos em junho. "Após as fortes saída que vimos nesses investimentos no fim de 2008 (por causa da crise internacional), tivemos um retorno este ano. Agora, devemos entrar em uma dinâmica mais estável e normal", disse Altamir Lopes.

Os números demonstram confiança no desempenho das empresas brasileiras e também na solvência do Estado. "Nossa previsão contempla alguns aspectos vinculados a um nível de atividade bem mais forte. Você tem uma bolsa que voltou aos 60 mil pontos, expectativa em relação ao comportamento da atividade no país, perspectiva de saída da crise mais cedo. Estamos voltando ao patamar natural", observou o chefe do Departamento Econômico do Banco Central.

No caso dos investimentos estrangeiros no setor produtivo (IED), um indicador de confiança no desempenho da economia a longo prazo, os números são também robustos. Em agosto, ingressaram no Brasil, em termos líquidos, US$ 1,907 bilhões. No ano, o resultado acumulado está em US$ 15,878 bilhões. O Banco Central aposta que, em 2009, o saldo será de US$ 25 bilhões, o equivalente a 1,81% do PIB.

Trata-se de um número bem inferior ao resultado de 2008, quando os investimentos produtivos feitos por estrangeiros somaram US$ 45,058 bilhões. Mas a tendência é de aumento. De acordo com Altamir Lopes, em 2010 o Brasil deverá receber US$ 38 bilhões em investimento estrangeiro direto. Esse volume será mais do que suficiente para financiar o déficit em conta corrente estimado para 2009 (de US$ 29 bilhões).

Os dados do BC revelam que a participação do setor industrial, no recebimento de IED, está aumentando fortemente em 2009, o que aparentemente desmente a ideia de que a apreciação da taxa de câmbio estaria desestimulando investimentos na indústria - de 31,5% do total recebido entre janeiro e agosto de 2008 para 52,2% no mesmo período deste ano. Isto mostra que as indústrias estrangeiras em atividade no país estão apostando na recuperação do mercado interno, como de fato vem ocorrendo ao longo de 2009. No ano, os setores que mais têm recebido investimento do exterior são os de metalurgia, veículos automotores, reboques e carrocerias, produtos químicos e farmoquímicos e farmacêuticos.