Título: Funcionário de carreira deve ser efetivado na diretoria-geral da Abin
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 09/10/2009, Política, p. A8
Reservado, o diretor-geral substituto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Wilson Roberto Trezza, marcou seu primeiro ano no comando da autarquia pela discrição. A poucos dias de ser sabatinado por senadores e, possivelmente, ter sua indicação a diretor titular da Abin aprovada, Trezza disse que pretende continuar comedido e que sua atividade dispensa a exposição. A postura do interino diferencia-se de seu antecessor no cargo, Paulo Lacerda, e ajudou a evitar novas polêmicas envolvendo a agência.
Ontem, estava prevista a sabatina do interino pelos senadores e a apreciação da mensagem enviada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Senado, com a indicação de Trezza à direção-geral da Abin, mas os questionamentos foram adiados para quarta-feira, para atender a um pedido de vistas do senador Heráclito Fortes (DEM-PI).
Ao sair da Comissão de Relações Exteriores do Senado, frustrada sua sabatina, não mudou o comportamento. "Sou mais reservado", comentou. "Minha atividade prescinde da exposição", afirmou. Discretamente, ele evitou falar de seu antecessor e dos problemas que marcaram a gestão de Lacerda na Abin. "Não vou emitir juízo de valor".
A discrição de Trezza fez com que ele ganhasse a confiança de parlamentares do governo e da oposição. Desde setembro de 2008 ele substitui interinamente Paulo Lacerda, que foi afastado após denúncias de que autoridades dos três Poderes teriam sido alvo de escutas telefônicas ilegais. "Trezza é a melhor parte da Abin nesses últimos anos", comentou Heráclito Fortes. "Talvez tenha sido o mais discreto, o que mais fugiu dos holofotes nos últimos anos", disse. O senador do DEM, entretanto, não poupou críticas à gestão de Paulo Lacerda. Alvo de um dos supostos grampos, o senador do DEM pediu o adiamento da sabatina como forma de protestar "contra o mau uso da Abin" pelos "arapongas".
Lacerda foi afastado após suspeita de que teria autorizado a participação de agentes da Abin na Operação Satiagraha da Polícia Federal, que teve como alvo principal o banqueiro Daniel Dantas mas grampeou autoridades do Palácio do Planalto e políticos ligados ao presidente Lula. Houve, também, o episódio de um suposto grampo telefônico com uma conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Lacerda foi diretor geral da Polícia Federal antes de assumir a Abin. O Gabinete de Segurança Institucional arquivou a sindicância sobre as denúncias e concluiu que a Abin não participou das escutas. O desgaste político, entretanto, ficou. Trezza destacou-se por não aprofundar a crise.
Formado em administração de empresas e com pós-graduação em Ciências Contábeis, Trezza é funcionário de carreira da Abin e ingressou na autarquia em 1981. Ele afastou-se da agência e trabalhou entre 2002 e 2003 como diretor de seguridade da Fundação CRT, atual Fundação BrTPrev, parte da Brasil Telecom que, na época, era controlada por Daniel Dantas. Segundo a assessoria de imprensa da Abin, ele foi escolhido para o cargo por ser "um especialista com experiência na área previdenciária" e mantinha "contato profissional apenas com o diretor financeiro e de recursos humanos da Brasil Telecom".
Trezza trabalhou no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, nos ministérios da Educação e Previdência. No Ministério da Educação, de 1998 a 2002, foi diretor de administração e produção do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. No Ministério da Previdência, foi assessor do secretário de previdência complementar entre 1993 e 1995.
A efetivação de Trezza no cargo agora depende da aprovação do Senado. "Não vejo como ter problema para ser aprovado", disse o interino ontem. Ele visitou nos últimos dias alguns senadores. Representantes do Gabinete Institucional de Segurança também têm feito "lobby" pela aprovação no Congresso.