Título: Merkel reafirma política centrista e promete cortar impostos em 2011
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 29/09/2009, Internacional, p. A10
A premiê alemã, Angela Merkel, prometeu cortes de impostos para as pessoas físicas e uma reforma tributária abrangendo desde as empresas até as taxas pagas sobre a transmissão de herança, mas deu sinais de que não pretende implementar mudanças radicais na economia nem que planeja cortes de gastos. Esse tom moderado foi bem recebido pelo mercado.
Merkel obteve na eleição de domingo uma vitória que possibilita montar uma coalizão de seu partido, a CDU - e a CSU, partido-irmão da CDU na Baviera -, com os liberais do FDP, forjando uma maioria parlamentar de 21 cadeiras.
Mas ela advertiu seus aliados que não haverá reformas mais radicais em favor de políticas de livre mercado, como pregam os liberais, nem que desistirá das medidas adotadas nos últimos quatro anos, durante o governo de grande coalizão reunindo os democratas-cristãos da CDU e os social-democratas, do SPD. "Não voltaremos atrás em nada", disse.
Os cortes de impostos só serão adotados a partir de 2011, por causa da programação orçamentária já acertada para o ano que vem, disse a premiê à TV ZDF, após um encontro com os líderes do FDP. "Espero que possamos resolver rapidamente nossas diferenças", disse ela.
O FDP defendeu durante toda a campanha uma reforma imediata, com cortes de impostos já e diminuição dos gastos do governo, para combater o crescente déficit fiscal. Apesar disso, Merkel afirmou que as arestas estão sendo aparadas e espera apresentar um novo governo antes de 9 de novembro, quando se comemoram os 20 anos da queda do Muro de Berlim. O líder do FDP, Guido Westerwelle, é cotado para assumir o Ministério das Relações Exteriores, enquanto o atual ministro da Economia, Karl-Theodor zu Guttenberg, é cotado para permanecer no posto ou assumir a pasta das Finanças.
Os mercados receberam bem os sinais de estabilidade dados pela premiê. O índice Dax, da Bolsa de Frankfurt, fechou em leve alta, mantendo-se relativamente constante durante o dia. Essa constância reflete uma confiança de que o novo governo não deve dar uma guinada nas políticas atualmente em prática.
As empresas de energia foram as que tiveram melhor resultado na Bolsa, impulsionadas pela perspectiva de um retorno do uso da energia nuclear, uma das promessas de campanha tanto da CDU quanto do FDP.
"A política econômica da Alemanha não vai se modificar profundamente", disse ao "Financial Times" Jörg Krämer, economista-chefe do Commerzbank. "Não haverá uma revolução thatcherista." Ele se referia às reformas radicais de privatização e abertura de mercado promovidas por Margaret Thatcher no Reino Unido durante a década de 80.
"Esperamos que os dois partidos concordem com uma reforma cautelosa no tocante ao mercado de trabalho e o sistema de seguridade social", disse à Reuters o economista Dirk Schumache, do Goldman Sachs. "O FDP certamente vai fazer pressão por mais reformas, mas o apetite de reforma de Merkel parece limitado", acrescentou.
Para Peter Loesche, professor de ciência política da Universidade de Göttingen, "haverá cortes simbólicos de impostos inicialmente. O principal problema da nova coalizão será o déficit e o desemprego crescente no ano que vem, que prejudicarão sua popularidade", disse ele à agência de notícias Dow Jones Newswires. Para ele, mudanças mais profundas sobre cortes de gastos ocorrerão apenas em 2011.
Em relação à Europa em geral, a vitória dos conservadores na Alemanha aumenta o domínio da centro-direita no cenário político da União Europeia. Diplomatas disseram ao "Financial Times" esperar que Merkel imprima sua marca em políticas europeias que vão desde disciplina fiscal e políticas de combate às mudanças climáticas até reformas institucionais do bloco.
Dos 6 maiores países da UE - Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Polônia -, 4 têm hoje governos de centro-direita. Há ainda a perspectiva de que o Reino Unido se transforme no quinto país, caso os conservadores tomem o poder nas eleições de junho próximo.
Essa predominância da centro-direita se torna bastante importante agora, num momento em que o bloco discute se deve adotar medidas para reduzir os déficits fiscais, inflados pelos planos anticrise.