Título: Os dois lados da inflação
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 12/06/2010, Economia, p. 14

Mesmo em baixa, os alimentos não param a gangorra dos preços, impulsionada pela forte demanda do consumidor por serviços

A inflação não dá trégua ao brasileiro. Enquanto os alimentos começam a apresentar recuo nos preços, os serviços seguem na direção contrária. Consertar o carro, cortar o cabelo ou frequentar uma academia de ginástica ficou, em média, 3,5% mais caro. Alguns itens chegam a acumular alta de quase 7% no ano. Nessa gangorra, impulsionados pela demanda intensa do consumidor, os serviços têm pesado mais e elevado fortemente os índices. A primeira prévia do mês do Índice Geral de Preços ¿ Mercado (IGP-M) disparou. Passou de 0,47% em maio para 2,21% em junho. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) segue na mesma trajetória e acumula alta de 3% apenas nos cinco primeiros meses do ano.

Para especialistas, a culpa dessa disparada está no consumo desenfreado dos brasileiros, que além de terem obtido muitos ganhos salariais estão se fartando de crédito. ¿Aumento de preço é a consequência mais natural de se estar crescendo mais do que é possível¿, avaliou Ricardo Denadai, economista do do Santander, ao fazer referência aos fortes avanços do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas do país) neste início de ano. ¿Tem mais gente demandando do que está sendo ofertado. Algumas coisas se resolvem com importação, mas o problema está na mão de obra e nos serviços, que não têm como se comprar de fora. Diante de um mercado tão apertado, o primeiro impacto é aumento de salário e do custo dos serviços¿, acrescentou.

Em contraponto, o preço dos alimentos, que vinham corroendo o bolso do consumidor, começaram a dar um alívio. O tomate, que no primeiro bimestre do ano era encontrado a até R$ 6 o quilo nos supermercados, hoje é vendido a R$ 1,99 em Brasília. Na média nacional, o desconto foi menor. Em maio, a fruta ficou 25,74% mais barata e segue em tendência de desaceleração. ¿Depois de uma subida muito intensa desses alimentos, agora entramos em um período de acomodação e até de retração dos preços. O clima parou de afetar a produção e o mercado especulativo está puxando as commodities para baixo¿, explicou Salomão Quadros, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Sobe e desce O aposentado Luiz João da Silva, 84 anos, reclama do custo de vida no país. Para ele, os preços chegaram a um patamar abusivo. ¿As coisas estão subindo muito. O serviço de mecânico, o aluguel, a conta de energia, tudo está mais caro¿, queixou-se. ¿Eu faço compras mensais, para encher a dispensa, enquanto a comida deu uma diminuída, alguns produtos de limpeza subiram. É sempre assim. Quando um desce, o outro sobe e a minha conta fica cada vez mais cara¿, explicou.

Lava a jato Um levantamento sobre o IPCA mostra os dois lados da inflação que aflige o brasileiro (veja quadro). Enquanto o custo de vida ficou 3% mais caro no acumulado dos cinco primeiros meses do ano, alguns serviços subiram quase 7%. Em função da explosão na venda de carros, os custos relacionados aos veículos se tornaram os mais onerosos em consequência da demanda aquecida. Pagar uma pessoa para lavar o carro, por exemplo, encareceu 6,76% neste ano. Uma lavagem simples da lataria e do interior do veículo já chega a custar mais de R$ 30. Consertar o automóvel em um mecânico aumentou 3,52%.

Toda essa procura por serviços abriu o mercado de trabalho para um batalhão de mecânicos, que ainda não conseguem dar conta de atender a todos os consumidores. Dono de uma micro-empresa, Antônio Silva Carvalho, 38 anos, diz que, com o sócio, chega a atender até dez clientes por dia. ¿Tem muita batida de carro com esse trânsito todo. Então, temos muito serviços de lataria. Época de chuva que é bom: tem muito alinhamento, balanceamento e conserto de motor de carro que entra em enxurrada¿, relatou o mecânico.

Elcio Ribeiro, 55 anos, trabalhava apenas com a venda de carros, mas em função do aquecimento do setor, decidiu investir em serviços. ¿Meus clientes reclamavam muito da falta de mecânico. Por causa dessa carência, resolvi montar uma loja. Surpreendeu o volume de clientes. Agora, quero ampliar para atender a todos¿, disse o empresário.

Dor e alívio no bolso Alta dos serviços até maio Em % Lavagem de veículo 6,76 Empregado doméstico 6,39 Academia de ginástica 4,39 Comida fora de casa 3,55 Conserto de automóvel 3,52 Cabeleireiro 3,28 Serviços de saúde 3,17

Baixa dos alimentos no mês passado Em % Tomate -25,74 Arroz -0,15 Açúcar cristal -7,70 Hortaliças e verduras -5,02 Frutas -3,45 Carne (alcatra) -0,72 Pão francês -0,59

Fonte: IPCA/IBGE