Título: Vale retoma nível de exportações
Autor: Durão , Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 07/10/2009, Empresas, p. B9
A Vale já retomou os níveis de exportações de minério de ferro do período anterior à crise econômica iniciada em setembro do ano passado. Em setembro, segundo fontes da mineração, a Vale embarcou 6 milhões de toneladas de minério e pelotas para o mercado europeu, recuperando o patamar de vendas mensais para a região no pré-crise. No ano passado a Vale vendeu 72 milhões de toneladas de minério para os clientes europeus. Este ano, com as siderúrgicas da Europa operando com ociosidade de 50%, as vendas foram de 1,6 milhão de toneladas em cada um dos dois primeiros trimestres.
No terceiro trimestre como um todo as exportações da Vale estão apontando para as previsões otimistas apresentadas por Roger Agnelli, presidente da mineradora, durante reunião com analistas no Rio e em Minas Gerais, no Vale"s Analyst & Investor Tour 2009. As exportações surpreenderam, fechando em torno de 70 milhões de toneladas, numa média mensal de 23,3 milhões de toneladas, perto dos 25 milhões de toneladas mensais do período pré-crise. Ainda no terceiro trimestre, as exportações para a Europa ficaram entre 5 a 6 milhões de toneladas/mês.
Para Marcos Assumpção, analista de mineração do Itaú Securities, o quarto trimestre deverá avançar mais nas exportações em relação ao terceiro, podendo chegar a embarques de 75 milhões de toneladas. Se isso ocorrer, a mineradora pode fechar 2009 com vendas de 250 milhões de toneladas de minério. Oficialmente, o Itaú trabalha com uma previsão anual conservadora de 230 milhões de toneladas até dezembro.
Durante o Vale"s Analyst & Investor Tour 2009, Agnelli manifestou-se muito otimista com o cenário positivo que desenha para a companhia em 2010. No encontro com os analistas, Agnelli atribuiu os rumores de sua saída do comando da Vale a proximidade do ano eleitoral. Ele considerou que em ano eleitoral isto é normal. "Tem gente que vai falar que vai comprar, que tem que investir. Isto faz parte do jogo", disse o executivo, segundo consta em relatório de analistas de banco que compareceram ao evento.
Bastante animado com a retomada da procura pelo minério de ferro, Agnelli previu um mercado de mineração aquecido no ano que vem, com a Vale devendo operar próxima da sua capacidade de produção de minério e pelotas entre 330 a 340 milhões de toneladas. Por conta dessas boas perspectivas, o executivo adiantou que a mineradora já está garantindo frete para boa parte de suas vendas no spot para a China em 2010 e 2011, apesar de garantir que "a Vale hoje está vendendo mais no benchmark (preço de referência) do que no spot (mercado livre)".
Como o mercado spot de custo e frete, que emplacou depois da crise, veio para ficar, a mineradora brasileira está tirando do papel sua estratégia de vendas CIF. A empresa, como afirmou Agnelli, está construindo na Malásia um centro de distribuição de minério com capacidade entre 20 milhões a 30 milhões de toneladas para fornecer uma mistura do produto de boa e fraca qualidade para as pequenas e médias siderúrgicas chinesas a um frete abaixo do australiano. Outros centros de distribuição da companhia na Ásia deverão estar operando entre 2012 e 2013. Com isso, a Vale está formando um hedge para garantir frete barato para o minério a ser fornecido para a China, caso seu preço dispare novamente com a esperada recuperação do mercado. O desempenho do terceiro trimestre reforça essa expectativa de melhora na demanda pelo produto no curto prazo.
"A Vale está se movendo rápido para reduzir sua exposição ao mercado de frete e deverá fechar negócio com 42 carregadores de minério (entre navios próprios e contratados) segundo nossa estimativa para 2009", destaca relatório de Marcelo Aguiar, do Goldman Sachs.
Estas providências vem sendo tomadas pela Vale apesar dos clientes chineses da mineradora, em sua maioria, estarem voltando a comprar minério pelo preço benchmark, acertado pela Vale com europeus e japoneses, revelou Agnelli. No segundo trimestre do ano, quando a Vale exportou 54 milhões de toneladas, 70% do minério foi vendido no mercado spot. No terceiro trimestre as vendas no mercado livre representaram menos de 50% das cerca de 70 milhões de toneladas de minério e pelotas exportados pela companhia. O spot chinês (que inclui o frete) chegou a ser cotado a US$ 110 a tonelada, mas depois baixou para US$ 80 e agora subiu para US$ 91. No entendimento de analistas, o que está puxando o preço do mercado livre de minério na China para cima é a demanda da Europa.
Ainda durante a reunião com os analistas, Agnelli informou que a maioria dos projetos de expansão de minério de ferro foram atrasados com a crise e que boa parte deles só entrará em operação a partir de 2013. O que indica uma oferta apertada para 2010, uma vez que a China continuará mantendo um forte consumo, mas vai perder um pouco a relevância que tem este ano, quando representa 60% das exportações da Vale.
Os analistas avaliam que a retomada do mercado de minério só vai encontrar a Vale com uma certa oferta excedente porque BHP Billiton e Rio Tinto já estão trabalhando a plena capacidade. "O único "player" com capacidade para entregar minério é a Vale", disse Assumpção, do Itaú. Para ele, isto revela que em 2010 os preços do minério, que neste ano caíram 28,2% para a Vale, poderão subir. O Itaú projeta uma alta de 10% para o minério no próximo ano.