Título: Acordo deve prejudicar exportações de carros do Brasil para a Europa
Autor: Moreira , Assis
Fonte: Valor Econômico, 16/10/2009, Internacional, p. A10
A indústria automotiva do Brasil vai ser uma das perdedoras do acordo de livre comércio assinado ontem entre a União Europeia (UE) e a Coreia do Sul, alertou o secretário-geral da Associação Europeia de Construtores Automotivos (Acea), Ivan Hodac.
O principal perdedor é a própria indústria europeia, segundo Hodac, que ontem conclamou os 27 países-membros a não aprovar o acordo com os coreanos, por considerá-lo "extremamente desigual e sem vantagem econômica".
Mas ele insistiu que outros exportadores para a Europa também vão pagar fatura. Enquanto as montadoras brasileiras e de outros países vão continuar pagando tarifa de importação de 10%, os coreanos terão a alíquota diminuída gradualmente até obterem a isenção ao final de cinco anos.
Assim, um carro médio coreano sairá ¿ 1,5 mil (US$ 2,2 mil) mais barato do que um automóvel exportado pelo Brasil, pelos cálculos de Hodac. Para o executivo, os produtores brasileiros, em boa parte de companhias europeias, vão sofrer, ainda mais com a taxa de câmbio valorizada hoje ante o real.
Mas a maior vantagem da indústria coreana é a simplificação da regra de origem. Pela primeira vez, a UE aceitou aumentar o nível de conteúdo estrangeiro para um produto ser considerado coreano e assim se beneficiar da isenção tarifária. Antes, exigia 60% de conteúdo local, mas no acordo com os coreanos aceitou baixar para 50%.
Com isso, a Coreia do Sul poderá aumentar operações de "drawback", ou seja, importar autopeças e componentes baratos da China e de outros fornecedores asiáticos e, quando exportar os veículos, receber de volta o valor da tarifa que pagou.
"Como eles importam enormemente essas autopeças, a vantagem comparativa é gigantesca", reclama Hodac. "É incompreensível como um negociador europeu aceitou isso, inclusive pelo precedente, porque qualquer outro acordo de livre comércio no futuro poderá ter a mesma cláusula."
A indústria europeia também poderá ter o abatimento, mas o executivo diz que isso é só no papel, porque na prática os construtores europeus utilizam muito pouco as operações de "drawback", inclusive pela distância de fornecedores baratos.
A indústria europeia teme uma enxurrada de carros coreanos, levando em conta que atualmente a Coreia já exporta 700 mil automóveis para o mercado europeu, enquanto a UE só consegue vender 30 mil carros para a Coreia do Sul anualmente.
O representante das montadoras europeias nota que a Coreia produz 3,5 milhões de automóveis por ano, dos quais 2,5 milhões são exportados. E quando há problemas econômicos internos, a exportação tende a aumentar ainda mais, com preços mais baixos.
A Hyundai, o sexto maior construtor automotivo do mundo, que vende um terço de seus veículos para o mercado europeu, é apontada como a maior beneficiária do acordo de livre comércio quando a tarifa de importação de 10% for eliminada ao longo de cinco anos.
O secretário-geral da Acea estima que agora não há condições para um acordo exclusivamente automotivo entre a UE e o Mercosul, para reequilibrar as condições competitivas, e o jeito será esperar mesmo "um dia" a conclusão de um acordo birregional. (AM)