Título: Lula fala com Agnelli sobre investimentos
Autor: Romero , Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 15/10/2009, EU & S.A, p. D3

O presidente da Vale, Roger Agnelli, apresentou ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante conversa por telefone, os planos de investimento da companhia para 2010. A conversa ocorreu no momento em que circulam informações de que o presidente, insatisfeito com a atuação da Vale no Brasil, estaria usando a presença indireta da União no capital da Vale para destituir Agnelli do seu comando.

Assessores do presidente negam que Lula esteja pressionando os sócios da Vale, mas confirmam que existem "setores do governo" descontentes com a atuação da empresa. A insatisfação teria duas motivações. A primeira diz respeito ao fato de a Vale ter demitido 1,9 mil funcionários, durante a crise, sem informar previamente o governo. A segunda se refere ao suposto desinteresse da empresa de investir em siderurgia no Brasil. Em entrevista ao Valor publicada no dia 17 de setembro, Lula declarou que "a Vale não pode ficar se dando ao luxo de ficar exportando apenas minério de ferro".

Segundo um assessor graduado do governo, quando deu a entrevista, Lula já teria se entendido com Agnelli. Nove dias antes - em 8 de setembro -, o executivo da Vale fez uma apresentação ao presidente, em seu gabinete no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, que durou cerca de duas horas e teve a participação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Durante a audiência, Agnelli explicou que dois dos três projetos de investimento em siderurgia da Vale no Brasil estavam paralisados por razões fora do controle da companhia. No caso da construção de uma usina siderúrgica no Espírito Santo, um projeto orçado em US$ 5 bilhões, com geração de 13 mil empregos, o projeto não andou porque, até o momento, o Ibama não aprovou a licença ambiental. A usina teria a parceria da chinesa Baosteel, que, por causa da crise e da falta de licença, desistiu do negócio.

O outro projeto que não andou foi o da construção de uma usina siderúrgica em Marabá, no Pará, um projeto de US$ 3 bilhões. Nesse caso, o governo paraense teria prometido conceder um terreno, mas não fez isso até hoje. Em outro projeto, o de construção da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), no Rio, orçado em US$ 5 bilhões, a Vale teve que ampliar sua participação de 10% para 28% do capital por causa do recuo do grupo alemão Thyssen-Krupp.

Nas conversas com Lula, Agnelli informou que a Vale é a empresa privada que mais investe no Brasil. Em 2009, dos R$ 18 bilhões do seu plano de investimento, 70% estão sendo aplicados no país.

Na terça-feira, Agnelli se reuniu em Brasília com o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. Durante o encontro, falou sobre os planos de investimento para 2010 e sobre o código de mineração em elaboração no governo. No mesmo dia, aproveitando a presença do executivo na capital federal, a assessoria de Agnelli teria solicitado ao gabinete do presidente um encaixe na agenda. Consultado, Lula negou o pedido.

Assessores do presidente ouvidos pelo Valor informaram que a recusa ocorreu porque a agenda de Lula estava lotada, a ponto de ele ter cancelado a reunião de coordenação política que teria naquele dia. Ontem, Agnelli conseguiu conversar com Lula por telefone. A conversa foi considerada "positiva". "Digamos que ninguém saiu triste do colóquio", comentou uma fonte a par do diálogo.

Os rumores de que Agnelli poderia perder o cargo se intensificaram nos últimos dias graças à entrevista dada pelo empresário Eike Batista ao "Estado de S. Paulo", com críticas à diretoria da empresa e à defesa de que o presidente da Previ, Sérgio Rosa, assuma o emprego do executivo. Na cúpula do governo, a entrevista de Eike foi vista como o interesse do empresário em ter o governo ao seu lado na tentativa de entrar na companhia.

Na avaliação de fontes ouvidas pelo Valor, a ofensiva de Eike estaria relacionada supostamente ao fato de ele ter tentado vender à Vale, sem sucesso, suas empresas de mineração e logística. Procurado no início da noite de ontem, Eike não foi localizado.