Título: Nova leva de estrangeiros inclui países árabes e asiáticos
Autor: Pavini , Angelo
Fonte: Valor Econômico, 15/10/2009, Investimentos, p. D2
O mercado brasileiro está assistindo a uma nova onda de investimentos estrangeiros, desta vez originário do Oriente Médio e países asiáticos, diz José Augusto Miranda, gerente da mesa de ações da HSBC Corretora. "São investidores novos como fundos institucionais de Abu Dabi ou Qatar que vêm aproveitar as oportunidades", diz.
Olhando os principais mercados emergentes - entre eles China Índia, Rússia e México -, o Brasil foi o que mais avançou em termos de economia e mesmo bolsa, observa Miranda. Até ontem, o índice MSCI Emergentes subia 71,43%, enquanto o MSCI Brasil apresentava ganho de 119,76%. Apenas como comparação, o MSCI Global acumulava alta de 26,33%.
Apesar da alta, o Brasil continua atraindo os estrangeiros pois ainda tem setores cujos preços das ações ficaram para trás e ainda são atrativos, diz Miranda, citando o exemplo de mineração, siderurgia e financeiro. Há também setores ligados ao mercado interno. "Os números de vendas do Dia das Crianças, 10% acima dos do ano passado, e os dados de aumento de vendas de papelão ondulado e do tráfego pesado nas rodovias são indicadores de que a recuperação da indústria e da economia está ocorrendo", observa.
Esses números fizeram o HSBC revisar o PIB para 2010, de 4,3% para 5,3%. A esses dados se juntam os sinais de melhora no exterior, com o resultado do JP Morgan acima do esperado e as vendas no varejo dos EUA caindo menos que as projeções. Por isso, o HSBC também revisou a projeção de crescimento do PIB americano para 2010, de 1,2% para 2,9%. A isso se somam os sinais de recuperação das commodities, puxadas pela importação da China, e o Japão falando em recuperação no ano que vem.
A Alcoa, a empresa que abriu a temporada de resultados corporativos nos Estados Unidos, foi a primeira a levantar a bola de que a China estava de volta ao mercado, lembra Mauro Giorgi, gestor de recursos da Hera Investment. Ontem foi a vez de a Rio Tinto declarar que está operando a plena capacidade na produção de minério de ferro para abastecer a China e, por isso, a reação da bolsa brasileira, com forte participação de commodities. Só que o movimento em cima das matérias-primas no mercado global vem combinado com o enfraquecimento do dólar, o que pode levar a exageros, ressalva. "Depois da fase otimista, podemos ter uma dose de realidade", diz.
Pelos fundamentos da economia, considerando os modelos de avaliação das empresas, projeções de lucros, receita líquida crescendo 20% em 2010 sobre 2009 e risco-Brasil na faixa dos 220 pontos base, o Índice Bovespa deveria estar na casa dos 62 mil pontos, diz Marco Melo, analista chefe da corretora Ágora. Ele trabalhava com um Ibovespa de 57.500 pontos para o fim deste ano. "Mas nem vou ajustar esse número, porque o que está movendo o mercado não são os fundamentos", afirma.
Para Melo, o que está acontecendo com a bolsa brasileira é o reflexo de um fluxo fantástico de investimentos estrangeiros para o Brasil. "Devemos ter o melhor ano de ingresso de estrangeiros na Bovespa", afirma Melo. Segundo ele, os estrangeiros escolheram o Brasil como opção de posicionamento para 2010. E estão colocando nos preços o melhor cenário para tudo, incluindo crescimento do PIB, política monetária e resultados das empresas, além de uma baixa aversão ao risco mundial. "Mas, tecnicamente, essa alta no curto prazo não se explica", diz.
Para 2010, usando esse cenário mais otimista, Melo acha que o mercado pode subir mais. "Um nível razoável seria um Ibovespa entre 75 mil e 80 mil pontos", diz. Melo afirma que vê todo tipo de fluxo externo vindo para o Brasil, desde fundos dedicados ao país, fundos regionais, de países emergentes, que reproduzem o MSCI e mesmo os setoriais, como de mineração, petróleo e papel e celulose, que acabam escolhendo as empresas brasileiras como destaque. O ponto positivo, diz Melo, é que o Brasil ainda opera com desconto considerando a relação preço sobre lucro (P/L) das empresas, de 10% em relação aos demais emergentes.
Existem papéis que subiram demais e outros que ainda podem subir, diz Miranda, da HSBC Corretora. Mas o ideal para o investidor agora é aguardar uma realização de lucros para entrar, acredita. "O movimento de alta foi um pouco fora da lógica, por isso esperamos que haja uma queda, até porque, o dinheiro que está vindo, se surgir outra oportunidade, pode sair tão rapidamente quanto entrou", afirma Miranda. A corretora do HSBC está revisando a projeção de preço para o Ibovespa, que era de 62 mil pontos para o fim do ano.
A entrada dos estrangeiros impacta o volume negociado na Bovespa. A média de negócios neste mês, até ontem, era de R$ 7,3 bilhões, para R$ 5,4 bilhões no mês passado. Ontem, o volume bateu R$ 14,6 bilhões, incluindo R$ 2,4 bilhões de opções. Do total negociado no mês, os estrangeiros respondem por 37%, seguidos das pessoas físicas, com 31%.