Título: Milionários na mira
Autor: Pavini , Angelo
Fonte: Valor Econômico, 19/10/2009, EU & Investimentos, p. D1

O segmento de gestão de fortunas, ou private banking, está novamente agitado. Os gestores estão de olho nos novos ricos que devem surgir com a retomada do crescimento econômico e com a forte valorização da bolsa. A saída do líder mundial UBS e o ingresso de novas instituições de peso como Goldman Sachs e Morgan Stanley colocam um tempero a mais neste setor. Isso sem falar na retomada de velhos participantes, caso do JP Morgan, que almeja a primeira posição no pódio dos private banks estrangeiros no Brasil.

O próprio UBS estaria tentando remontar seu private local, do zero, enquanto o BGT (antigo Pactual) reforça o seu time, tirando executivos da concorrência.

As apostas também estão na onda de ofertas públicas, apesar de as mais recentes serem de grandes empresas voltadas principalmente para o financiamento da produção. Mas a expectativa é de que esse perfil mude. A estimativa de um banco de investimentos é de que 30 ofertas de ações ocorram nos próximos 18 a 24 meses, entre as quais várias de empresas familiares.

Além disso, o crescimento do país e a entrada de investidores internacionais devem ampliar operações de compras e fusões de empresas. Só o Itaú Unibanco trabalha com 26 operações desse tipo para clientes do private, diz Celso Scaramuzza, diretor-geral do segmento de gestão de fortunas da instituição. Há ainda a expectativa da aprovação da anistia para os recursos não declarados no exterior, que poderia dobrar o volume hoje em privates, de R$ 300 bilhões.

O mercado de gestão de fortunas passa por um momento de ebulição, diz Celso Portásio, diretor-geral de private banking do JP Morgan Brasil. As taxas de juros dos CDBs caíram, os clientes estão procurando mais orientação para diversificação e o mercado perdeu um participante importante com a saída do UBS, que transferiu os clientes para o brasileiro BTG. "Sabemos como é importante para o private ter um braço internacional", diz Portásio.

Os processos de fusão de grandes bancos, como Itaú e Unibanco e Santander e Real, devem causar descontentamento em alguns clientes. Ao mesmo tempo, há a entrada do Banco do Brasil, Bradesco e de estrangeiros, que também devem assediar os milionários dos concorrentes. "Esses processos sempre criam desconforto para alguns clientes."

Segundo Portásio, o private local do JP Morgan teve a vantagem de não ver sua matriz tão afetada pela crise. No Brasil, a proposta do banco é ser o maior estrangeiro no mercado local de private. "Pretendemos ser o private local com maior presenta internacional e o banco internacional mais forte no segmento", diz Portásio. "Mas primeiro temos de nos preparar em termos de produtos, plataforma e estrutura física."

Isso incluirá a abertura de três novos escritórios, além dos quatro atuais em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Belo Horizonte. As possíveis candidatas são Curitiba, Ribeirão Preto e Recife. O JP Morgan deverá também reduzir o valor mínimo exigido dos potenciais clientes. Hoje, ele é muito acima da média do mercado, de R$ 1 milhão, diz Portásio, sem revelar a quantia exata. "O novo valor vai ser maior que essa média, mas não tanto quanto hoje", diz. Hoje o private do JP Morgan se concentra em clientes de altíssima renda.

O Brasil é a principal economia da América Latina e hoje uma das mais relevantes entre os países emergentes, por isso, é normal os olhos dos bancos se voltarem para o país, diz Helena McDonnell, diretora de Private Banking do HSBC. "E os bancos estão tentando ou fortalecer ou se instalar aqui", observa. No caso do HSBC, o Brasil é prioridade mundial, ao lado da China e Índia. Segundo ela, o banco se saiu melhor entre os estrangeiros pois foi menos afetado pela crise mundial. "Alguns bancos ficaram muito marcados na crise, é preciso ver agora como o investidor vai se comportar", diz.

Ela considera importante a saída, ainda que temporária, do UBS porque isso cria desconforto para os clientes. E abre espaço para outros bancos roubarem esses investidores. "Ganhamos alguns clientes nesse processo", diz. Segundo ela, o apetite do investidor por risco voltou neste semestre, o que também favorece o setor. "No ano passado, o mercado foi basicamente CDB, e quando se fala em CDB não existe private, porque não temos como agregar valor."

As taxas de CDB recuaram e abriram espaço para os privates, diz Osvaldo Cervi, diretor da área de alta renda, private e varejo massificado do Banco do Brasil (BB). O próprio BB foi vítima dessa concorrência, já que a instituição não elevou tanto as taxas de seus papéis durante a crise. "Agora há uma procura por produtos mais sofisticados, onde o private pode se diferenciar", diz.

Para Cervi, com a economia brasileira crescendo até 6% no ano que vem, e atraindo grandes volumes de investimento estrangeiro, é de se esperar um aumento nas operações de abertura de capital e compra e venda de empresas. E esse movimento deve favorecer a entrada de novos milionários no mercado de private.