Título: Relatório do BC alerta para aumento da inflação em 2010
Autor: Safatle , Claudia
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2009, Brasil, p. A3

O déficit em conta corrente deste ano deve chegar a US$ 18 bilhões, US$ 3 bilhões a mais do que estimava o Banco Central no Relatório de Inflação de junho. Para 2010, foi mantida a estimativa de déficit de US$ 29 bilhões. O aumento do déficit este ano decorre da reavaliação que o BC fez em todo o balanço de pagamentos: o superávit da balança comercial, segundo as novas projeções, subiu para US$ 27 bilhões, US$ 7 bilhões acima da previsão anterior, e o déficit na conta de serviços e rendas foi para US$ 48 bilhões, US$ 10 bilhões acima da projeção anterior.

O BC dá duas explicações para a acentuada elevação no déficit de serviços e rendas: os gastos com viagens internacionais subiram de US$ 3 bilhões para US$ 4,5 bilhões, principalmente por causa da valorização do real, e as despesas líquidas com aluguel de equipamentos no exterior foram para US$ 9 bilhões, considerados os contratos.

Segundo os dados das contas externas do relatório de inflação de setembro, divulgado na sexta-feira, as remessas líquidas de lucros e dividendos também devem crescer bastante em 2009, de US$ 17 bilhões para US$ 22,3 bilhões, por causa da valorização cambial.

O BC estima queda importante, de US$ 8 bilhões, no saldo comercial em 2010, que ficaria em US$ 19 bilhões. As exportações cresceriam 9,9%, mas as importações aumentariam 18,4% no próximo ano, com um crescimento de quase o dobro do que as exportações.

O superávit da conta financeira do balanço de pagamentos, antes estimado em US$ 28 bilhões, foi, agora, reavaliado para US$ 44,1 bilhões, como decorrência da forte recuperação da Bovespa. A projeção de ingressos líquidos de investimentos em carteira saltou de US$ 3 bilhões para US$ 22 bilhões.

O Banco Central antevê, no lado interno da economia, uma significativa deterioração da inflação em 2010, ao incorporar o "impulso fiscal" dado pelo governo este ano, em parte para fazer frente à crise financeira global. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - conforme as novas projeções feitas com um modelo ajustado para captar o efeito do aumento do gasto público - é de 4,4% para o próximo ano, maior que os 3,9% previstos no relatório de junho, praticamente sem nenhuma folga em relação à meta de 4,5% para o período.

Para 2009, é menor o impacto tanto do alívio monetário (com a queda de 5 pontos percentuais da taxa Selic) quanto fiscal, dado pela redução da meta de superávit primário de todo setor para até 1,56% do PIB (e não mais 2,5%). Para este ano a projeção de inflação subiu de 4,1% para 4,2%.

A trajetória concebida no relatório é de que o IPCA encerre este ano em 4,2%, caia para 3,6% no segundo trimestre de 2010, e a partir daí assuma uma curva crescente encerrando o ano em 4,4%. Em 2011, a inflação iria para 4,6% nos dois primeiros trimestres, recuando para 4,5% no terceiro trimestre, onde estacionaria.

Está feito, assim, o alerta para um possível aumento a taxa de juros básica em 2010 - ano das eleições presidenciais - muito provavelmente antes que o IPCA aumente. "Cabe registrar que a elevação da projeção de inflação no segundo semestre de 2010 e no primeiro de 2011 em parte se deve aos impulsos fiscais esperados para o segundo semestre de 2009 e o primeiro de 2010, que vêm contribuindo para acelerar a retomada da atividade", indica o relatório.

A inflação cairia no terceiro trimestre de 2011 se for eliminada parte dos "estímulos fiscais" .