Título: Irã desafia as potências
Autor: Sabadini, Tatiana
Fonte: Correio Braziliense, 09/06/2010, Mundo, p. 20
Conselho de Segurança deve votar hoje novo pacote de sanções. Ahmadinejad afirma que, com elas, não haverá mais negociação
Para o presidente Mahmud Ahmadinejad, as oportunidades de um acordo sobre o programa nuclear iraniano podem estar encerradas hoje, quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas deve votar uma resolução que reforça as sanções contra o país (leia o quadro). Ahmadinejad reiterou que seu governo não voltará a negociar com as potências ocidentais se o projeto, patrocinado pelos Estados Unidos, foi aprovado. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, reiterou que as medidas serão ¿duras e significativas¿ e reafirmou sua confiança em uma vitória folgada. A expectativa é de que apenas três dos 15 membros do conselho votem contra: Líbano, Turquia e Brasil ¿ os dois últimos, copatrocinadores de um acordo com Teerã envolvendo a troca de urânio enriquecido.
¿Já disse que a administração americana e seus aliados se equivocam, se acham que podem esgrimir a ameaça de uma resolução e depois sentar-se à mesa para negociar conosco¿, desafiou Ahmadinejad. ¿Isso não vai acontecer¿, garantiu, falando à imprensa em Istambul, na Turquia. Para o governo iraniano, a negociação mediada pela Turquia e o Brasil resultou em uma oferta que não se repetirá. ¿Esse acordo é uma oportunidade para o governo americano e seus aliados. Espero que a utilizem bem. As oportunidades não se repetirão¿, declarou o chefe de Estado. ¿Se tentarem falar conosco de maneira brutal, com um tom de dominação, já conhecem nossa resposta.¿
O acordo, firmado em maio, prevê o envio à Turquia de 1.200 kg de urânio levemente enriquecido, que ficará sob custódia da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) por até um ano. Dentro desse prazo, o Irã deve receber em troca 120kg de urânio enriquecido a 20%, para uso médio em um reator experimental de Teerã. As grandes potências, principalmente os EUA, suspeitam de que o Irã quer apenas ganhar tempo para continuar enriquecendo urânio até ser capaz de produzir a bomba atômica.
Para Carlos Eduardo Vidigal, doutor em relações internacionais e professor do Departamento de História da Universidade de Brasília, o acordo negociado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apenas mais um passo no longo caminho da crise nuclear. ¿Ele contribuiu para o posicionamento de diversos países e teve importância no jogo internacional, mas a negociação já estava fadada ao fracasso na ONU. O mesmo aconteceu com o governo norte-americano antes da ocupação do Iraque: a recusa já era prevista¿, comentou o especialista.
Consenso Falando à imprensa em Quito, no Equador, a secretária de Estado americana afirmou que, após a votação de hoje, o governo iraniano deve enfrentar um forte pacote de medidas. ¿Penso que é correto dizer que são as sanções mais significativas que o Irã já enfrentou¿, disse Hillary Clinton. O Conselho de Segurança deve aprovar restrições comerciais e o bloqueio de transições financeiras. ¿É bem provável que as sanções sejam aprovadas. Em especial por causa da posição da Rússia e da China, que não queriam suas relações de comércio com o Irã afetadas. Por isso, as sanções serão um pouco mais brandas do que se esperava¿, explicou Vidigal.
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, que também estava em Istambul para um encontro de segurança, como Ahmadinejad, confirmou que a comunidade internacional tinha discutido e alcançado uma decisão final sobre as novas sanções. ¿Trabalhamos muito e acreditamos que praticamente se chegou a um acordo. Nosso ponto de vista é de que essas decisões não devem ser excessivas e não devem colocar o povo iraniano numa posição difícil, que poderia obstruir o caminho para o uso pacífico da energia nuclear¿, assegurou o chefe de governo à agência russa Itar-Tass.
Se as sanções forem aprovadas, a expectativa é saber qual será o real impacto delas. ¿Nossa meta segue sendo convencer o Irã a suspender seu programa nuclear e negociar de maneira construtiva e de boa-fé com a comunidade internacional¿, argumentou a embaixadora americana na ONU, Susan Rice. Uma solução para o impasse parece, no entanto, estar longe. ¿As negociações devem se estender por algum tempo. O Irã não vai deixar de fazer o enriquecimento de urânio, e ao mesmo tempo um programa nuclear precisa ter restrições¿, pondera Vidigal.
O projeto de resolução
Veja as principais sanções previstas no texto que o Conselho de Segurança deve votar hoje:
Material bélico O Irã fica proibido de adquirir diversas categorias de armamentos, incluindo helicópteros, mísseis e sistemas de artilharia.
Exceção: a Rússia poderá concluir a venda dos modernos mísseis antiaéreos S-300, que têm ogivas múltiplas, longo alcance e são capazes de abater vários aviões. Por isso, são vitais para defender as instalações nucleares de um ataque israelense e/ou americano.
Transações bancárias O texto instrui os países a bloquearem qualquer transação financeira com instituições iranianas relacionadas a atividades nucleares. Bancos implicados diretamente no programa devem ter suas operações proibidas.
Exceção: a China exigiu que o nome de nenhuma instituição financeira fosse listada nas sanções, o que lhe permitirá manter as crescentes relações comerciais com o Irã.
Vigilância Os países-membros da ONU são encorajados a fiscalizar ativamente, em seu território, carregamentos com origem ou destino no Irã, para certificar-se de que não contêm mercadorias proibidas por esse pacote de sanções ou pelos anteriores. Além de armamentos, isso compreende também material de tecnologias aproveitáveis no programa nuclear.
Análise da notícia Baralho viciado
Silvio Queiroz
Aproveitando a expressão evocada pelo presidente Lula para criticar a intransigência das potências ocidentais, e para tornar ainda mais distante uma solução no impasse nuclear iraniano, agora é Mahmud Ahmadinejad quem adota o tom de ¿dá ou desce¿. E parece enganoso supor que ele derrapa, que exagera na dose: mais provável que a aposta seja exatamente em um caminho que poupe seu governo da espinhosa arte de escolher e fazer concessões.
De certa maneira, o engessamento de posições em ambos os lados se retroalimenta. Ao contrário do que um exame superficial possa sugerir, é na confrontação com o velho ¿grande Satã¿ ¿ xingamento que andava fora de moda ¿ que Ahmadinejad trata de lavar a legitimidade manchada na reeleição. E a imposição de sanções pelo Conselho de Segurança cala, no mínimo constrange a oposição.
O acordo mediado por Brasil e Turquia só teria chances de prosperar como uma espécie de ponte por sobre o abismo, um suporte para que as duas partes dessem os primeiros passos na direção recíproca. Segundo uma tática de ¿tudo ou nada¿, nenhum dos jogadores precisa mover suas peças.
Físico aparece em dois vídeos
A votação sobre a nova rodada de sanções no Conselho de Segurança das Nações Unidas coincide com uma controvérsia paralela sobre o programa nuclear iraniano, envolvendo o desaparecimento de um cientista. Em um vídeo exibido pela emissora oficial Islamic Republic of Iran Broadcasting (Irib), o físico nuclear Shamram Amiri corrobora a versão do regime islâmico, segundo a qual ele teria sido sequestrado e levado para os Estados Unidos, onde estaria sendo retido e interrogado pelos serviços de inteligência. Horas depois, no entanto, outro vídeo postado na internet mostra Amiri supostamente confirmando a alegação dos EUA ¿ de que se tratou de uma deserção.
O pesquisador, que segundo o Irã trabalhava na Universidade de Teerã, desapareceu há cerca de um ano, durante peregrinação a santuários islâmicos na Arábia Saudita. Fontes ligadas aos EUA, no entanto, sustentam que Amiri trabalharia para a Agência Atômica Iraniana e disporia de informações relevantes sobre partes secretas do programa nuclear ¿ entre eles uma instalação cuja descoberta, em setembro passado, arruinou as negociações entre o governo iraniano e as potências ocidentais.
No primeiro vídeo, no qual aparece com um fone de ouvido diante de uma webcam, um homem que se identifica como Amiri afirma que foi sedado por agentes sauditas enquanto visitava a cidade de Medina. ¿Quando recuperei a consciência, estava num avião a caminho dos EUA¿, diz o cientista, que alega ter sido obrigado a dizer que desertou com um laptop. ¿Desde então, fui duramente torturado e pressionado pelos órgãos de inteligência. No segundo filme, o suposto Amiri sustenta que vive ¿em segurança e liberdade¿ nos EUA, embora não fale em deserção: ¿Meu propósito é pôr um fim aos rumores que vêm sendo difundidos. Sou um iraniano e não cometi nenhum ato contra meu país¿.