Título: Sob pressão, Senado vota adesão da Venezuela
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2009, Política, p. A10

Empresários da Venezuela e do Brasil pressionarão o governo federal e senadores nesta semana pela aprovação do protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul. A proposta será votada na Comissão de Relações Exteriores do Senado na quinta-feira e seguirá para votação em plenário.

Representantes do setor produtivo temem perder negócios com a Venezuela caso o protocolo seja rejeitado. O receio, segundo empresários, é que haja algum tipo de retaliação. Dirigentes da Federação de Câmaras de Comércio e Indústria Venezuela-Brasil desembarcarão hoje em Brasília para iniciar uma ofensiva pela aprovação. Para o presidente da entidade, José Francisco Marcondes Neto, a Venezuela poderá deixar de oferecer vantagens econômicas ao Brasil, em especial nos setores automotivo, alimentício, da construção civil e da indústria petroquímica. "Vetar a adesão da Venezuela ao Mercosul é uma irresponsabilidade. Poderá prejudicar a negociação de alíquotas preferenciais ao Brasil", disse. "A expansão do Mercosul não pode ser vista sob o viés político ou ideológico."

Há setores empresariais, no entanto, que resistem à proposta, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). De acordo com a analista de negociações internacionais da entidade, Lucia Maduro, ainda não existem garantias de que a Venezuela cumprirá os contratos que serão firmados com o protocolo, nem de que seguirá as regras do Mercosul. "Há interesse econômico sobre essa adesão, mas ainda falta clareza sobre muitos pontos. O Congresso deveria adiar essa discussão", comentou. Para a analista, as negociações comerciais entre os dois países não serão prejudicadas caso o Congresso brasileiro vete a entrada do país no bloco comercial. "Os negócios com a Venezuela são realizados independentemente de o país estar no Mercosul", afirmou Lucia.

O comércio Brasil-Venezuela cresceu 885% nos últimos dez anos e o comércio com o país foi o que mais contribuiu para o superávit primário em 2008: 18% do saldo brasileiro vêm das exportações ao país vizinho. O PIB da Venezuela é de US$ 300 bilhões e um conjunto expressivo de empresas brasileiras, em especial da área de construção pesada, atua naquele país.

Assim como no setor produtivo, há divergências também entre os senadores. O relator da proposta, Tasso Jereissati (PSDB-CE), apresentou voto contrário à adesão da Venezuela. Seu relatório traz críticas à política do presidente venezuelano Hugo Chávez e à "estratégia de destruição da democracia". O PSDB deverá votar em bloco contra o projeto, assim como o fez na Câmara, em 2008. "Mantemos a posição crítica à política de Chávez", disse Eduardo Azeredo (PSDB-MG), presidente da Comissão de Relações Exteriores. A principal restrição é ao descumprimento de cláusulas democráticas do acordo do bloco. O DEM também apresenta resistência.

O PT e parte da base governista pressionarão pela aprovação do protocolo. O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), apresentará um voto em favor da proposta. Apesar da resistência do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ao projeto, pemedebistas deverão seguir a orientação do governo.

Na terça-feira, dois dias antes da votação do parecer, será realizada a última audiência sobre o tema. O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos principais opositores a Chávez, deverá defender o ingresso do país no bloco. Ele argumenta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá ajudar a impedir a "perseguição a oponentes" por Chávez. Ledezma mudou de opinião: em março, enviou carta a Sarney pedindo o veto à proposta. Na época, argumentou que seria um "grave erro" admitir no Mercosul um presidente autoritário.

Apesar de contrário à adesão, o presidente da Comissão de Relações Exteriores analisou que a mudança de opinião de Ledezma poderá influenciar senadores. A proposta deve ser analisada pelo plenário do Senado esta semana. O protocolo foi firmado em 2006 e precisa ainda ser aprovado pelo Brasil e Paraguai - Argentina e Uruguai já aprovaram.