Título: Petróleo faz do Canadá novo vilão do clima
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2009, Especial, p. A14

A van segue veloz pela rodovia 63, rumo ao norte. O asfalto perfeito da estrada canadense e a agenda apertada animam o motorista, que acelera - até a hora em que aparece o carro de polícia e manda encostar. O guarda se aproxima, avisa que o limite de velocidade foi ultrapassado, pede documentos e se retira. Mas quando retorna, minutos depois, quebra o script rotineiro: "Você é do Greenpeace, não é?". Essa reação inusitada mostra como a polêmica e rentável exploração das areias betuminosas é um tema delicado no Canadá.

O policial nem espera pela confirmação, quer saber o destino da turma. "Vamos falar com uma anciã", responde Alex Paterson, assessor de imprensa do Greenpeace canadense, referindo-se ao encontro com a líder indígena de uma comunidade vizinha. "Quem?", continua o interrogatório à beira da estrada. "Porque vão falar com ela?" Desta vez é o fotógrafo Colin O´Connor que reage, com discreta indignação: "Por quê? Por acaso é ilegal?" O policial diz que não, mas está reticente, some de novo, consulta alguém pelo celular e retorna: "Ok, mas vou acompanhá-los."

Foto Colin O"Connor / Greenpeace ... e é substituída pelo cenário sombrio das minas de extração de betume, onde não sobrou uma única árvore

No norte de Alberta, a província do Canadá que está ganhando todo tipo de fama por abrigar o maior projeto energético do mundo, o que era para ser uma multa por excesso de velocidade se transforma em um comboio policial de três viaturas para escoltar três ambientalistas, um fotógrafo e uma jornalista. É deste jeito que entramos pelas ruelas de Fort MacKay, a pacata comunidade onde vivem, segundo a placa de madeira na entrada, exatas 273 pessoas. Há alguns trailers estacionados e playgrounds de plástico nos jardins. Celina Harpe, de 70 anos, a líder da etnia cree, acena da porta de uma casa verde, na beira do rio.

O incidente demonstra que em Wood Buffalo, o maior município canadense, a tensão está no ar - assim como o forte cheiro de ovo podre, uma característica da presença de ácido sulfídrico. Ambientalistas e indígenas estão em pé de guerra com o governo e empresas petrolíferas do mundo todo. Não há consenso nem sobre o nome da confusão. Os verdes chamam a área de "Tar Sands" (areias de piche ou areias de alcatrão), algo que soa ruim. Governo e empresas rejeitam essa denominação e adotam um termo que julgam mais neutro e promissor. "O nome adequado é "Oil Sands´" diz por e-mail Kevin Stringer, diretor-geral do Petroleum Resources Branch, um braço do Ministério dos Recursos Naturais do Canadá.

Foto Colin O"Connor / Greenpeace Espantalhos no lago: ideia é evitar dramas como o dos 500 patos que pousaram nas lagoas da Syncrude em 2008; só dois sobreviveram ao óleo e às toxinas

Há um mês, na véspera do encontro entre o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, e o presidente dos EUA, Barack Obama, 25 ativistas do Greenpeace entraram na mina Albian, da Shell, pararam por várias horas a produção e penduraram faixas gigantes: "Tar Sands: Climate Crime". É um crime climático, além de causar dano a recursos naturais e à saúde das pessoas, dizem ambientalistas.

Mas a trajetória da vizinha cidade de Fort McMurray, mostra o outro lado da história. Seria só mais um local caipira do norte canadense não fosse a extração do tal do "betume". É evidente que se trata de um centro superaquecido. A população, de 66 mil habitantes, dobrou em dez anos, e o preço das casas triplicou. Motoristas solitários dirigem aqueles jipões enormes. No pequeno aeroporto, cartazes fazem propaganda de empresas de petróleo. Tem muito trabalho naquele pedaço do mundo.