Título: Governo quer ampliar investigação da CPI do MST
Autor: Zanatta , Mauro
Fonte: Valor Econômico, 23/10/2009, Política, p. A12

Derrotado nos bastidores do Congresso Nacional, o governo começou o contra-ataque à criação da Comissão Mista Parlamentar de Inquérito criada para investigar repasses da União a entidades vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, acusa a oposição de fazer da CPI um instrumento de "luta política" e afirma que as investigações serão ampliadas para as contas da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), ambas comandadas pela senadora oposicionista Kátia Abreu (DEM-TO).

"Isso é uma chatice, vai gastar energia em algo desnecessário, mas vamos para essa CPI discutir financiamento de todo mundo. Vamos abrir a caixa preta do Senar e ver essa relação com a CNA", afirmou Cassel ontem ao Valor.

No duelo de bastidores pela criação da CPI, a oposição teve o apoio de 210 deputados e 36 senadores. O governo conseguiu a retirada de 19 deputados da lista. Mas não foi suficiente. Agora, a disputa política será pelo comando da CPI, onde o governo terá a maioria e poderá controlar os cargos mais importantes - presidente e relator - e indicar parlamentares de sua confiança.

Líder ruralista e principal articuladora da criação da CPI, a senadora Kátia Abreu deve ser o alvo preferencial do governo. "O Tribunal de Contas da União já levantou problemas de financiamento da campanha da senadora nesta relação com o Senar. Vamos apurar isso também", afirmou o ministro Cassel. "Dirigentes da CNA são mesmo pagos com dinheiro do Senar? É dinheiro público, para formação de profissionais". E a oposição tucana também não escapa do radar do governo. "Se é para fazer o jogo político, vamos falar de grilagem de terras em São Paulo, lá no Pontal do Paranapanema", disse Cassel, em referência à responsabilidade do governo de São Paulo com o tema.

Em defesa dos ruralistas, a senadora Kátia Abreu afirma que não teme investigações nas entidades do setor. E revida as ameaças: "A CNA não tem nada de errado. Se quiserem falar algo, terão que provar depois. No Senar, temos tudo auditado internamente, inclusive pelo TCU. Além disso, no conselho do Senar está a Contag", afirmou, em referência à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, que tem vínculos estreitos com o ministério de Guilherme Cassel. "Deixa o guarda apitar antes para depois sabermos se estamos na contramão da rua".

Na avaliação do ministro, o governo "não está preocupado" com a CPI. Para ele, é apenas um "novo round de uma oposição desnorteada" causado pelo crescimento da candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência e a habilidade do governo em driblar a crise financeira global. "E aquela barbaridade na Cutrale ajudou a criar o caldo para essa CPI", analisa, ao referir-se à recente invasão e depredação de uma fazenda da empresa no interior de São Paulo pelo MST. Cassel rejeita a ocorrência de desvios nos repasses. "Não tem repasse ao MST nem irregularidades. Pode haver algo de formalidade. Mas não temos medo porque já olharam e reviraram tudo. Nossos convênios são com prefeituras, Estados e empresas de extensão (Emater). Se alguém fez bobagem lá na ponta, não é problema nosso. Mas vamos cobrar a devolução do dinheiro".