Título: Morte por renmimbi
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Fonte: Valor Econômico, 03/11/2009, Opinião, p. A15

Há várias semanas, a desvalorização do dólar em relação ao euro e iene vem arrebatando as atenções mundiais. Em um mundo normal, o enfraquecimento do dólar seria bem-vindo, já que ajudaria os Estados Unidos a arcar com seu déficit comercial insustentável. Em um mundo onde a China atrela sua moeda ao dólar sob uma paridade subestimada, a depreciação do dólar ameaça provocar danos econômicos mundiais significativos, que complicarão ainda mais a recuperação da atual recessão mundial.

Um realinhamento do dólar já deveria ter ocorrido há um bom tempo. Sua sobrevalorização começou com a crise do peso mexicano em 1994 e foi consagrada oficialmente com a política do "dólar forte" adotada após a crise financeira do leste asiático, em 1997. Essa política produziu ganhos de consumo de curto prazo para os EUA, o que explica por que foi popular entre os políticos americanos, mas infligiu danos substanciais de longo prazo na economia dos EUA e contribuiu para atual crise.

O dólar sobrevalorizado provocou hemorragias na economia dos Estados Unidos, na forma de gastos em importações, transferência de postos de trabalho ao exterior e de investimentos em países com moedas subvalorizadas. Na era atual da globalização, marcada por redes de produção móveis e flexíveis, as taxas de câmbio afetam mais do que apenas exportações e importações. Afetam também a localização da produção e dos investimentos.

A China vem sendo um importante beneficiário da política de dólar forte dos EUA, à qual combinou com sua própria política de ""renmimbi fraco". Como resultado, o superávit comercial da China com os EUA aumentou de US$ 83 bilhões, em 2001, para US$ 258 bilhões, em 2007, pouco antes da recessão. No acumulado de 2009 até agora, o superávit chinês representou 75% do déficit comercial não petrolífero dos Estados Unidos. O "renmimbi subestimado também tornou a China um grande receptor de investimentos externos diretos, chegando até a ser líder mundial nessa categoria em 2002 - um feito assombroso para um país em desenvolvimento.

O tamanho dos recentes déficits comerciais dos EUA sempre foi insustentável, com o que o dólar, portanto, desvalorizou-se em relação ao iene, euro, real brasileiro e dólares australiano e canadense. A China, contudo, continua com sua política cambial de subvalorização e, logo, o "renmimbi valorizou-se relativamente menos em relação ao dólar. Esse padrão, combinado ao rápido crescimento da China em capacidade industrial, promete criar uma nova rodada de desequilíbrios mundiais.

A política da China cria uma concorrência cambial antagônica com o resto do mundo. Ao manter a moeda subestimada, a China está impedindo os EUA de reduzirem seu déficit comercial bilateral. Além disso, o problema não é apenas os EUA. A política de câmbio chinesa confere-lhe vantagens competitivas em relação ao outros países, permitindo-lhe substituir suas exportações para os EUA.

Ainda pior, os outros países cujas moedas tenham se valorizado em relação ao "renmimbi podem aguardar por uma invasão de importações de produtos chineses. A política cambial da China significa que a desvalorização do dólar, em vez de melhorar o equilíbrio comercial dos EUA e estancar a perda de postos de trabalho e investimentos, pode inadvertidamente disseminar esses problemas para o resto do mundo. Na prática, a China alimenta novos desequilíbrios em um momento no qual os países enfrentam dificuldade com a falta de demanda provocada pela crise financeira.

O dólar faz parte de um cubo mágico de taxas de câmbio. Com a China mantendo sua política de moeda subvalorizada, a depreciação do dólar pode agravar as forças deflacionárias mundiais. No entanto, uma combinação de fatores políticos vem levando as autoridades monetárias a uma surpreendente recusa em confrontar a China.

Pelo lado dos EUA, uma persistente mentalidade de Guerra Fria combinada à presunção de superioridade econômica dos EUA faz com que questões econômicas ainda sejam consideradas subservientes a receios geopolíticos. Isso explica a negligência às relações econômicas entre EUA e China, negligência agora perigosa para os EUA, tendo em vista sua condição econômica fragilizada.

Com relação ao resto do mundo, muitos acham fácil culpar os EUA, frequentemente por ressentimento com sua visível arrogância. Além disso, há uma velha mentalidade entre os países sulinos de que estão acima do bem e do mal em suas relações com o Norte e que devem exibir solidariedade entre si no que se refere a essas relações.

Por fim, todos os países provavelmente ficaram míopes, imaginando que o silêncio lhes traria favores comerciais da China. O silêncio, no entanto, simplesmente permitiu que a China explorasse a comunidade das nações.

A economia mundial pagou um preço muito alto pela cumplicidade e pelo silêncio em relação às políticas econômicas dos últimos 15 anos, que culminaram na recessão mais profunda e perigosa desde os anos 30. Pagarão ainda mais se as autoridades monetárias continuarem passivas sobre a política cambial destrutiva da China.

Thomas I. Palley é pesquisador da New America Foundation.