Título: Estabilidade é atrativo para carreira no funcionalismo
Autor: Máximo, Luciano
Fonte: Valor Econômico, 09/11/2009, Brasil, p. A3
Crise à vista? Proteja-se na estabilidade da carreira pública: sem experiência anterior, sem limite de idade, ambos os sexos." É assim que um cartaz esteticamente questionável, pendurado em uma das salas de aula do cursinho Central de Concursos, promove o sonho de aprovação nos concorridos processos seletivos das administrações federal, estaduais e municipais.
Em meio aos cem alunos da classe, a jovem Carla Seppi, de 23 anos, ouve atentamente as explicações do professor sobre estrutura societária de empresas familiares e sociedades anônimas. Assim como os colegas, anota cada palavra, com ênfase nos termos técnicos, como fator de atualização de capital, por exemplo. Ela é um dos 3,5 mil candidatos a uma vaga na máquina pública federal matriculados em uma das cinco unidades do cursinho em São Paulo. Este ano, quatro alunos da escola foram aprovados em concursos estaduais e federal. No ano passado, a escola emplacou 55 concorrentes. Em 2009, o Ministério do Planejamento autorizou a abertura de 15.830 vagas para os quadros federais. No ano passado, foram 40 mil oportunidades oferecidas.
Ao entrar na faculdade de ciências contábeis, há quatro anos, Carla já sabia que queria seguir os exemplos dos pais e de parentes e se tornar funcionária pública. Mais especificamente, trabalhar na Receita Federal, um dos cargos mais concorridos. Nos últimos dois anos, ela gastou cerca de R$ 5 mil com o cursinho preparatório e, atualmente, estuda num estágio intensivo na unidade da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, à espera da abertura dos editais das provas que vão definir os novos analistas ou auditores da Receita, cujos salários iniciais variam de R$ 7 mil a R$ 14 mil.
Apesar de reconhecer que tem pouca experiência profissional - fez estágio num escritório de contabilidade por seis meses durante a graduação - e enfrenta dificuldades em matérias ligadas à rotina de trabalho de um servidor da Receita, como contabilidade e auditoria tributária, Carla está certa de que oportunidade oferecida pelo concurso é melhor do que começar uma carreira na iniciativa privada. "Fiz a faculdade já pensando em entrar para a Receita, pela estabilidade, pelo salário e também pela qualidade de vida. No mercado, a gente trabalha muito mais, há uma exigência maior, hora extra, para, no fim, receber menos", argumenta.
Para Carla, todo o esforço vale a pena e, mesmo que não seja bem-sucedida nas provas, não desistirá facilmente. "Além do curso, estou estudando umas três horas por dia, de manhã, à tarde e à noite, e procuro acompanhar a publicação de artigos sobre direito tributário, que é minha principal dificuldade, na internet", explica a candidata.
"Sou nova e se não entrar nesse, haverá outros concursos. Eu só me vejo trabalhando no setor público. Sei que experiência conta, mas os aprovados fazem cursos e recebem treinamento e isso só me motiva, porque terei chance de aprender muito e fazer o que eu gosto", diz Carla, ao ser questionada sobre se o curso é suficiente para qualificá-la para o cargo ou concorrer com outros milhares de candidatos.
Já para Rui Gonçalves Vicente, 53 anos, trabalhar no setor público representa superar a instabilidade da iniciativa privada. Formado em engenharia e em química, ele construiu sua carreira em empresas de grande porte do setor plástico, onde ocupou cargo de gerência por 20 anos. "Uma multinacional comprou a empresa em que eu trabalhava e eu fui descartado. Cheguei a ser indicado pelo presidente da empresa para uma filial, mas ele precisou voltar para os Estados Unidos para assumir uma nova atividade na matriz e o seu substituto me demitiu", lembra Vicente.
Frustrado, hoje ele sequer considera procurar emprego na iniciativa privada, pois está certo que não terá proposta salarial equivalente ao que recebia antes de ficar desempregado. Não aceita trabalhar por menos de R$ 7 mil. "Não é só o concurso, a área pública hoje valoriza também a experiência profissional e tem também a estabilidade e o salário, que garantem segurança muito maior. O destino do profissional não fica na mão de uma meia dúzia de executivos", critica Vicente, que há quase um ano estuda para concursos do Banco Central e da Receita Federal.
Enquanto a prova não chega, além da rotina de estudo, o desempregado por opção dá aulas particulares de química e agradece poder contar com o apoio da esposa e do filho, de 14 anos. "Sei que sou privilegiado. Minha mulher trabalha há 20 anos na mesma empresa e tem um bom salário, por isso tenho tempo para estudar. E a cobrança maior é minha, não vem deles."
As palavras "não passar" não existem no vocabulário de Vicente, embora esteja consciente das dificuldades das provas e da exigência do resto do processo, como análise de currículo e a entrevista. "Uma oportunidade no setor público não vai depender da minha idade e, sim, do que tenho a oferecer."