Título: Superávit de 2010 será o menor da era Lula
Autor: Villaverde , João
Fonte: Valor Econômico, 10/11/2009, Brasil, p. A3

O saldo comercial brasileiro deve registrar o menor superávit em todo o governo Lula no próximo ano. Diante da maior aceleração das importações frente às exportações, a balança pode fechar 2010 com superávit de um dígito pela primeira vez desde 2001, quando o saldo foi de US$ 2,7 bilhões. Enquanto que neste ano o resultado será semelhante ao alcançado em 2008 (US$ 25 bilhões), no ano que vem, o mercado, por meio do boletim Focus, trabalha com um valor 36% menor. Analistas consultados pelo Valor preveem enxugamento ainda maior no superávit.

Impulsionado pelo consumo doméstico, o país retoma o crescimento, apontando para uma elevação de 5% no PIB do próximo ano. O consumo das famílias, calcado na manutenção e elevação do salário mínimo - que também corrige dois terços dos benefícios previdenciários - e nas políticas sociais de transferência de renda, como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada, cresce acima do PIB neste ano, devendo fechar 2009 com elevação de 3,5% sobre o ano passado, segundo projeções dos analistas. O impacto do aumento do consumo foi defasado sobre a produção industrial. Assim, na oferta, o espaço é crescentemente ocupado pelas importações, em um movimento que deve ganhar ainda mais relevância em 2010.

Segundo cálculos da economista Luiza Betina, do Santander, a cada 2% de aumento do consumo, as importações crescem três vezes mais. Assim, é razoável supor que, diante do aumento do consumo esperado para o ano que vem, as importações ampliem sua participação no mercado interno. "Neste ano, as exportações devem cair, ao todo, 7%, enquanto as importações devem tombar 8,7%. Ou seja, em 2009 o setor externo acaba contribuindo positivamente para o PIB, algo que não deve se repetir", afirma Luiza.

Para a economista, as importações devem ultrapassar a marca dos US$ 160 bilhões no próximo ano, "retirando" o equivalente a 1,2 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB). Por isso, afirma Luiza, as projeções do Santander para o PIB de 2010 são de 4,8%. "De outra forma, o PIB poderia crescer até 6%", diz.

O Itaú Unibanco avalia que o mergulho do saldo comercial será ainda mais profundo. Segundo analistas do banco, o Brasil deve registrar um déficit de US$ 2 bilhões na balança comercial em 2010. "Se olharmos a corrente de comércio neste pós-crise em termos absolutos para projetarmos uma trajetória linear, estaremos nos iludindo. Há uma clara tendência de aceleração das importações, muito acima das exportações", afirma Darwin Sallas Dib, economista do Itaú Unibanco. Segundo Dib, a pauta importadora brasileira é disseminada. "Estamos importando bens de capital, o que é ótimo, porque amplia o parque produtivo nacional. Mas no próximo ano vamos aumentar as compras de insumos e bens de consumo duráveis", avalia.

Já as vendas ao exterior se concentram cada vez mais em bens primários, sustentados por dois fatores: o câmbio valorizado, que diminui a rentabilidade dos bens manufaturados, e a demanda por commodities, especialmente da China. Como os principais compradores de produtos industrializados brasileiros se recuperam mais vagarosamente, como Argentina e Estados Unidos, a demanda internacional se concentra nos países que crescem mais rápido, como a China - que deve crescer quase 9% neste ano - , que adquire bens primários, em sua maioria.

"As perspectivas para o próximo ano são de um resultado melhor para as exportações de commodities, que, no entanto, não garantirão sozinhas a sustentação de um saldo comercial elevado", afirma Julio Callegari, economista do JP Morgan. Segundo Callegari, em 2010, enquanto o PIB alcançará taxas de 5%, o consumo deve se ampliar em 6,5% e a demanda doméstica, conta que inclui os investimentos, 7%. Para o economista, a redução do saldo comercial terá como consequência direta o salto no déficit de transações correntes do país. "Neste ritmo, caminhamos para um déficit de 3% do PIB em 2010, o que não é pouco", diz.

Para Marcio Holland, professor da FGV-SP, o aumento do endividamento externo não deve ser entendido como "natural". "O Brasil precisa reverter essa tendência de fazer uso de poupança externa e de deixar a taxa de câmbio se apreciar tanto. É um grande erro de política econômica, que deve comprometer a sustentabilidade do crescimento no longo prazo", avalia.

Para Holland, o impacto da apreciação cambial é subavaliado. A entrada de capital externo por meio de investimentos diretos e aplicações em títulos e bolsa contribuiram, ao lado dos dólares que ingressam oriundos das exportações, para derrubar a cotação da moeda em mais de 27% - no ano, o dólar passou de R$ 2,33 para R$ 1,70.

"O Brasil tem deixado de exportar produtos industriais para economias avançadas e se voltado para a América Latina, mas, na região, a China começa a entrar fortemente. Ou seja, o impacto da taxa de câmbio sobre o saldo comercial não é somente no agregado, mas também na composição", afirma o professor da FGV.

A valorização do real estreita as margens de rentabilidade do setor industrial. "A indústria brasileira não é mais competitiva do que a dos EUA, Europa e Ásia para compensar a apreciação cambial. Definitivamente, não é mesmo. Com tal comportamento cambial, não há por que acreditar que vamos conseguir ganhar de modo expressivo mercados externos", critica Holland.

O BC projeta ampliação contínua do déficit em conta corrente, uma vez que o fluxo de moeda estrangeira para o Brasil se intensificará ao longo dos próximos anos, o que deve manter o real em patamares apreciados frente ao dólar. A maior dependência de capital estrangeiro é a pior das consequências da valorização cambial, avalia Holland. "Temos o fato histórico de que, pelo menos desde os anos 1970, sempre que tais déficits cresceram, o país passou por crises econômicas."

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, mais importante que o câmbio são os movimentos de preços e quantidades comercializadas com o exterior. Vale não projeta grande diminuição no saldo comercial, embora avalie que as importações vão crescer. "Deveremos ter um efeito forte de quantidade importada, mas não tanto de preços, como ocorreu em 2008".

No ano passado, raciocina Vale, o valor da importação cresceu por conta de preço e quantidade, mas como a recuperação mundial será mais lenta "devemos ter expansão praticamente apenas de quantidade importada, e muito pouco de preço". Para ele, a conta mais salgada será paga no próximo governo. "O saldo pode virar negativo em 2011, mas com certeza em 2012 já teremos déficit comercial."