Título: Blecaute teve erro humano ou falha de equipamento
Autor: Goulart, Josette
Fonte: Valor Econômico, 13/11/2009, Brasil, p. A4
Erro humano ou falha de equipamento (computador) ao fazer as compensações geradas pelo desligamento automático de uma das linhas de Itaipu são as causas mais prováveis para o apagão de terça-feira, na avaliação de dois professores da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Roberto Schaeffer e Carlos Portela. Portela disse ao Valor não entender por que a causa do acidente ainda não foi apurada, uma vez que, segundo ele, está, com certeza, registrada nos computadores das subestações envolvidas.
Nascido em Portugal, Portela é especialista na construção de grandes linhas de transmissão, como a de Itaipu. Na década de 1960, foi um dos responsáveis pela construção da linha de 1.450 quilômetros que leva energia da hidrelétrica de Cahora Bassa, em Moçambique, para a África do Sul. Ele disse que teriam sido necessárias três descargas atmosféricas (raios) simultâneas, com intensidade capaz de desligar uma linha de 765 kilovolts (kV), para que houvesse o desligamento das três linhas de corrente alternada de Itaipu. Sem contar as de corrente contínua, que têm quatro polos e podem funcionar com apenas um polo. "Acho improvável que isso tenha ocorrido. O normal seria que a carga da linha atingida fosse transferida para outra. Falta alguma coisa a ser revelada", afirmou.
Na avaliação de Portela, que leciona engenharia elétrica na Coppe, a partir da falha, humana ou de equipamento, que gerou o desligamento de Itaipu, a sequência que se seguiu não chega a ser anormal, dados os mecanismos de proteção do sistema, que vão provocando desligamentos em cadeia.
Ele acha que a hipótese de Itaipu estar gerando energia acima do necessário é "improvável", seja porque as variações de carga no Brasil não são elevadas, seja porque Itaipu já foi mais sobrecarregada, quando respondia por 34% da energia consumida no país. Para Portela, tudo pode ser esclarecido consultando-se os registros dos computadores das subestações.
Para Schaeffer, que é professor de planejamento energético da Coppe, "o governo quis rapidamente dar uma explicação para um problema, cuja resposta, na realidade, ainda não se sabia". Na opinião do especialista, o evento inicial, a parada da linha de Itaipu, pode ter sido provocada por um evento meteorológico, como afirma o governo, ou por falha de um equipamento, mas "o mais sério foi a propagação do problema".
Shaeffer disse não haver dúvidas de que as linhas de transmissão brasileira evoluíram nos últimos anos, e que a propagação do apagão só pode ser justificada por falha humana ou de equipamento. "Por ser parte muito importante do sistema elétrico brasileiro, o problema tem que ser rapidamente corrigido", disse o especialista, para quem o apagão "acende uma luz amarela para que se trabalhe na melhoria da gestão".
Para Schaeffer, o setor elétrico brasileiro tem muitos "caciques" dando ordens, o que pode gerar perturbações. Mas ele discorda de que, neste caso, a superposição de órgãos tenha tido alguma interferência no ocorrido. "Na operação, a atribuição é clara: o responsável é o ONS (a sigla do Operador Nacional do Sistema Elétrico)", afirmou. Na avaliação de Schaeffer, ou falhou algum equipamento de Furnas (dona das linhas de transmissão) ou a gestão do ONS.