Título: Sistema de transmissão é pouco fiscalizado pela Aneel
Autor: Goulart, Josette
Fonte: Valor Econômico, 13/11/2009, Brasil, p. A4
José Cláudio Cardoso, da Abrate: empresa é punida pelo corte de energia
Apesar da frequência com que as linhas e subestações que fazem parte do sistema de transmissão do país aparecem nos registros de desligamentos automáticos do Operador Nacional do Sistema (ONS), a transmissão é um dos setores com o menor número de fiscalizações registrados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). No ano passado, foram 60 fiscalizações contra 826 realizadas na atividade de geração de energia e outras 198 em distribuição.
Levantamento feito pelo Valor , com base nos boletins semanais do ONS deste ano, mostra que foram registradas 80 ocorrências relevantes no sistema, e cerca de 90% envolveram quedas das linhas de transmissão e consequentes cortes de energia. É preciso levar em conta, entretanto, que o ONS não faz nenhum registro de ocorrências das empresas distribuidoras. A pesquisa mostrou que a Eletronorte é a empresa mais citada nos relatórios como responsável por cortes de energia, em cerca de 30% das vezes e é seguida por Chesf (18%), Cteep (13%) e Furnas (11%) nesse ranking.
O diretor de produção e comercialização da Eletronorte, Wady Charone, explica que a empresa é a campeã de ocorrências em função de seu sistema de linhas radias, ou seja, as linhas não são interconectadas e assim sempre que há um desligamento automático ocorre um corte na energia até que a linha de segurança (de redundância) seja acionada. "Nosso sistema é diferente das linhas de Furnas e Eletrosul que são malhadas, ou seja, interligadas em diferentes caminhos e por isso há menos incidência de corte", diz Charone.
Mesmo tendo esse perfil de linhas malhadas, as linhas de Furnas figuram entre as ocorrências mais graves registradas neste ano pelo ONS. Além de terem sido as responsáveis pelo blecaute que atingiu 18 Estados brasileiros e o Paraguai, as linhas da empresa sofreram quedas em julho, outubro e agora em novembro. Em julho, também foram as linhas que ligam Itaipu ao sistema interligado que tiveram problemas. Ficaram mais de uma hora desligadas e foram responsáveis pela saída de 3.180 MW do sistema.
Em outubro deste ano, linhas que ligam Gurupi a Miracema no Tocantins ficaram uma hora e meia desligadas, interrompendo a transmissão de 2.279 MW da região Sudeste para as regiões Norte e Nordeste e ainda interrompeu fluxo de 789 MW na interligação Sudeste/Nordeste. Nesta ocorrência, o ONS teve que usar o Esquema Regional de Alívio de Carga das regiões Norte e Nordeste. Também no blecaute desta semana esse esquema foi usado para isolar as regiões Norte, Nordeste e Sul e impedir que o apagão fosse completo também nestas regiões. A empresa foi procurada mas não falou sobre o assunto.
Na maior parte das ocorrências registradas pelo ONS neste ano, as causas não são apresentadas e é apenas informado que as empresas estão pesquisando o ocorrido. Essa é a mesma informação inclusive que consta do boletim do ONS do dia 10 de novembro sobre o blecaute. Diz o boletim que Furnas está estudando as causas. Vários especialistas do setor explicam que é simplista a explicação de que foram raios que causaram a queda do sistema na terça-feira à noite. Um blecaute como aquele é somatório de uma série de eventos e por isso agora estão sendo investigados por Furnas.
Os resultados dessas investigações são repassados à Aneel que então analisa se é preciso fazer uma fiscalização na empresa, que pode resultar em uma advertência ou multas às empresas. O presidente da Associação Brasileira dos Transmissores de Energia (Abrate), José Cláudio Cardoso, explica que mesmo sem a fiscalização da Aneel as empresas são punidas pelo tempo que interrompem o fornecimento de energia. Se o sistema fica mais de quatro horas fora do ar, a empresa perde o faturamento de um mês inteiro. "Todo minuto sem fornecimento é descontado da receita", diz Cardoso.
A Cteep que figura entre as três empresas com maior ocorrência, e por onde trafega 30% da energia produzida no país, explica que as interrupções podem acontecer por defeitos em equipamentos, descargas atmosféricas, queimadas próximas às linhas de transmissão, quedas de pipas e balões em linhas e subestações, colisões de veículos em torres de transmissão, dentre outros. No entanto, a grande maioria se caracteriza por impacto local e religamento ágil, seja pela subestação ou linha onde ocorreu o desligamento ou por outras que também abastecem a região atingida.
Um problema apontado por Marcos Alves, professor da Universidade de São Paulo e diretor da Treetech Sistemas Digitais, é o fato de que muitos equipamentos destas empresas que possuem linhas de transmissão bastante antigas não têm a capacidade de resposta ao sistema de monitoramento on-line como têm os novos equipamentos.