Título: As lições do apagão
Autor: Goldemberg , José
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2009, Opinião, p. A13
O "apagão" de 10 de novembro além de ser um incidente sério do ponto de vista técnico que poderia ter tido consequências muito piores do que teve acabou por ser educativo para o governo e para os setores mais esclarecidos do país.
Em primeiro lugar, o simples fato de ele ter ocorrido abalou o ufanismo e a arrogância do governo que quer mostrar a todo custo sua superioridade em relação ao comando anterior. O espetáculo lamentável da cúpula do setor elétrico brasileiro, ministro de Minas e Energia, Furnas, Itaipu e Operador Nacional do Sistema (ONS) dando explicações contraditórias sobre as causas do "apagão" mostra claramente a falta de comando que o governo tem sobre a área de energia.
Em segundo lugar, a decisão do governo de atribuir o problema a causas naturais, descartando totalmente falhas do sistema de controle e humanas, não foi convincente. Todas essas explicações, aventadas pelo ministro e seus assessores, são inverossímeis. Inicialmente se disse que um vendaval havia derrubado torres, o que não ocorreu. Depois, que um raio teria provocado um curto circuito nos dois linhões de Itaipu, fato extremamente improvável mesmo porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) não detectou grandes anomalias atmosféricas naquele momento. Além disso, raios caem todos os dias sobre as linhas que são protegidas contra eles por para-raios. Se a explicação do ministro fosse correta, deveríamos ter apagões todas as semanas, o que não é o caso. A explicação do ministro em lugar de tranquilizar a população teve exatamente o efeito oposto. O último dos grandes apagões desse tipo ocorreu em 1999 e suas causas nunca foram identificadas. Em 2001 não tivemos realmente um "apagão", mas falta de energia elétrica porque a escassez de chuva nos anos anteriores deixou os reservatórios vazios.
Em terceiro lugar, a tentativa totalmente inaceitável do ministro Edison Lobão (e outros) de encerrar o assunto antes que as suas causas fossem esclarecidas - como se desejassem enterrar um morto antes que a "causa mortis" fosse esclarecida - lhe valeu uma reprimenda do presidente da República que deseja os fatos esclarecidos. O Ministério Publico Federal havia feito a mesma exigência. Uma investigação está em andamento e provavelmente identificará o que de fato aconteceu. Isso é fundamental e poderá levar a providências para que não aconteça novamente. Enquanto isso não ocorrer pode-se apenas especular sobre o que poderia ter acontecido.
O mais provável, contudo, é que tenha havido problemas de gestão administrativa e eletrônica do sistema. Não é claro, por exemplo, porque Itaipu estava gerando a plena carga (12 mil megawatts) às 10 horas da noite enquanto outras usinas como as antigas usinas da Cesp estavam fora do sistema. O razoável é que a carga estivesse melhor distribuída e não concentrada em Itaipu. Nessas condições de sobrecarga, uma pequena perturbação poderia de fato ser produzida por raios e perturbar o sistema que tem, contudo, sistemas de proteção que não funcionaram a não ser para desligar as máquinas de Itaipu. Esse parece ser o ponto crítico do problema. Qualquer computador tem proteções contra sobrecargas e sistemas "no-break". Nos linhões de Itaipu eles não existiam ou não estavam em boas condições de funcionamento o que é inadmissível. Esses problemas têm solução técnica e providencias enérgicas precisam ser tomadas a respeito.
A mais longo prazo, qual a solução para ter um sistema elétrico menos vulnerável? A receita é simples: descentralizar as fontes de geração de energia elétrica. O que isso significa é que daqui para frente é preciso construir usinas menores de modo que não se coloque "todos os ovos numa cesta só" como ocorreu no "apagão" de 10 de novembro em que apenas Itaipu supria toda a eletricidade de São Paulo.
O que cabe é estimular a geração em muitos locais e integrá-los à rede nacional organizando-a de forma a garantir autonomia regional em caso de crise. Isso é o que a ONS deveria fazer.
Em caso de acidente ou incidente numa das fontes de geração ou em algumas linhas de transmissão, regiões inteiras do país seriam desligadas da rede nacional e seriam supridas por redes regionais. Isso deveria ter ocorrido em 10 de novembro, mas não aconteceu. De novo um problema de gestão.
Poder-se-ia perguntar se o que aconteceu é devido à privatização parcial do sistema elétrico e se não seria o caso de mudar de rumo adotando uma das duas soluções: privatizá-lo completamente para melhorar a eficiência da gestão que é usualmente baixa em empresas estatais ou estatizá-lo completamente porque a mistura de empresas estatais e empresas privadas não estaria dando certo.
A resposta é que o problema do "apagão" está nas linhas de transmissão, que são estatais. Elas são como estradas em que diferentes produtores lançam sua energia. Na Espanha, por exemplo, existem mais de 10 mil fontes de energia espalhadas pelo país incluindo as usinas eólicas e solares e lá o sistema funciona bem.
Não nos parece, pois que seja o modelo de propriedade do sistema (publico ou privado) a causa do "apagão".
"Apagões" podem ser perigosos não apenas estragando a comida das nossas geladeiras ou eletrodomésticos; ao desligar a energia elétrica de hospitais, vidas são postas em risco. Além disso, cortar a energia necessária para mover as bombas de resfriamento dos reatores nucleares de Angra dos Reis forçando os seus operadores a desligá-los, é um jogo perigoso.
Mais humildade e, sobretudo, mais competência parecem fazer falta aos atuais dirigentes do nosso setor elétrico.
José Goldemberg é professor da Universidade de São Paulo (USP).