Título: Papagaios de pirata em ação
Autor: Iunes, Ivan
Fonte: Correio Braziliense, 21/06/2010, Política, p. 2

Candidatos nos estados não perdem a oportunidade de pegar carona com os presidenciáveis e na popularidade do presidente Lula. O caminho preferido é colar nas estrelas da campanha e fazer de tudo para aparecer nas fotos

A pré-candidata à Presidência da República Dilma Rousseff (PT) não é a única que ambiciona surfar nos altos índices de popularidade do presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto a campanha oficial não chega, postulantes a mandatos de governador, senador e deputado fazem ginástica para turbinar a candidatura, tentando colar a imagem à do governo federal. Sem Lula no palco, o alvo preferencial tem sido Dilma. A cada viagem da ex-ministra da Casa Civil, uma trupe de políticos locais se exercita para aparecer melhor na foto ao lado da ¿imagem e semelhança¿ de Lula. A intenção é transmitir ao eleitor um único recado, embora muitas vezes inverídico: se Dilma é responsável pelos principais projetos do governo Lula, são eles, os políticos locais, os encarregados de colocar tudo em prática nos municípios.

Durante viagens recentes a Santa Catarina e Goiânia, mais do que divulgar a própria pré-campanha, Dilma se encarregou de carregar nos braços nomes de aliados locais que ainda patinam nas pesquisas. No Sul, ¿colaram¿ na presidenciável a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), candidata ao governo, e o deputado federal Cláudio Vignatti (PT-SC), que tentará uma cadeira no Senado. A dupla já havia sido elogiada pela pré-candidata em março, quando tiveram a campanha lançada pelos petistas locais. Na ocasião, Dilma disse que o país deve uma ¿parcela de seu desenvolvimento à garra de Ideli¿, e elogiou a importância de Vignatti no comando da Frente Parlamentar de Apoio à Micro e Pequena Empresa ¿ a petista quer criar um ministério para cuidar do setor.

No evento da semana passada, que reuniu seis mil representantes da agricultura familiar, a massa presente fez com que o movimento fosse ainda mais forçado. Contagiada por ver Dilma ser recebida aos gritos de ¿presidente¿, Ideli deixou de lado a legislação eleitoral, que proíbe antecipação de campanha, e lançou mão do microfone para apresentar a ¿futura presidente do Brasil¿. A cada foto da pré-candidata, não era um tarefa difícil constatar a presença de Vignatti e da senadora a tiracolo.

A estratégia de ¿colar¿ a imagem à de Lula e, por extensão, Dilma, se aplica em vários grotões e nas capitais estaduais. Em Goiânia, na semana passada, a pré-candidata levou uma legião de políticos, ávidos por conseguir uma ¿casquinha¿ eleitoral do presidente, por meio da ex-ministra. O movimento começou durante entrevista da pré-candidata a uma rádio local. Além de ser entrevistada pelo deputado Sandes Júnior (PP-GO), que não se furtou de elogiar o governo federal, a ex-ministra foi acompanhada pelos deputados federais Rubens Otoni (PT-GO), Sandro Mabel (PR-GO) e pelo subchefe de Assuntos Federativos da Presidência, e aspirante a um cargo eletivo no futuro, Olavo Noleto. Todos tiveram o nome devidamente citado, alguns sob elogios, pelo locutor.

Aos ouvintes, Dilma se equilibrou entre os dois pré-candidatos que a apoiam no estado, Vanderlan Cardoso (PR) e Iris Rezende (PMDB). O preferido, contudo, ficou evidente na estratégia repetida pela presidenciável a cada estado: o personagem local responsável pelo ¿sucesso¿ do governo federal. Em Goiás, a ex-ministra indicou o protagonista. ¿Estive com o ex-prefeito Iris Rezende inaugurando aqui um conjunto de habitações populares. É um projeto que não é só meu, é dele. Tocamos os projetos juntos¿, revelou Dilma. Mais tarde, em discurso para empresários, ela voltou a elogiar a dupla Vanderlan/Íris.

Quando as alianças regionais entram em choque com o alinhamento ao governo federal, a estratégia utilizada pelos candidatos é forçar nas declarações de apoio ao Palácio do Planalto. Eleitor declarado de Dilma, o deputado federal Jovair Arantes (PTB-GO) apoia o tucano Marconi Perillo ao governo goiano. Como consequência, não pôde fazer o périplo por Goiânia ao lado da ex-ministra, que desfilou ora com Íris, ora com o principal cabo eleitoral de Vanderlan, o governador Alcides Rodrigues. A solução de Jovair foi ir a público, no dia seguinte, com declarações de impacto pró-Dilma.(1) Valeu até sugerir a criação do voto ¿Dilmar¿, num trocadilho com os nomes da presidenciável e de Marconi. ¿O PTB de Goiás, através das lideranças, através de nossos deputados, estará na trincheira da Dilma no sentido de ajudar a crescê-la em Goiás¿, disse o deputado.

1 - Mais um O deputado Jovair Arantes (PTB-GO), que apoia a candidatura de Dilma Rousseff (PT) à presidência e a de Marconi Perillo (PSDB) ao governo goiano, criou mais um neologismo para justificar sua postura política. Depois do Dilmasia mineiro, do voto em Dilma e no governador Antonio Anastasia, Goiás terá o voto ¿Dilmar¿, num trocadilho com os nomes da presidenciável e de Marconi