Título: Medida corrige distorção, mas não muda tendência da taxa de câmbio
Autor: Galvão , Arnaldo
Fonte: Valor Econômico, 19/11/2009, Brasil, p. A2

A nova medida do governo, que cria a partir de hoje um tributo de 1,5% sobre a cessão de ações com a finalidade de lastrear novas emissões de recibos de ações no exterior (DRs), recebeu o apoio da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O presidente da entidade, Marcelo Giufrida, afirmou que o setor apoia as iniciativas para corrigir a distorção criada com a taxação sobre o capital estrangeiro que ingressa na bolsa brasileira. Ele ressalvou, entretanto, que o IOF é ruim para o mercado de capitais, assim como o "efeito-surpresa" e as mudanças de regras "sempre prejudicam os investidores de longo prazo".

A mudança foi conhecida por boa parte dos executivos do mercado de capitais durante um coquetel da Anbima ontem à tarde. A presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana, que estava no evento, disse que ainda não tinha conhecimento da medida em detalhes, mas em princípio via nela a correção de uma distorção. "Havia uma assimetria muito grande criada pela primeira elevação do IOF e, aparentemente, o imposto sobre o ADR veio diminuir esta assimetria", afirmou.

"Esse tipo de medida não serviu para alterar a trajetória da taxa de câmbio", disse o economista e ex-diretor do Banco Central, Rodrigo Azevedo, hoje sócio da JGP Investimentos. Segundo ele, a primeira elevação do imposto em outubro foi capaz de tirar a volatilidade do cambio no início, mas depois perdeu o efeito. "Aparentemente não funcionou". O diretor do Itaú Unibanco, Demosthenes Madureira de Pinho, comentou: "Não é que seja uma medida ruim. Só não sei se é eficaz."

A medida simplesmente fecha uma brecha, avaliou o diretor de investimentos no Brasil da gestora de recursos americana Franklin Templeton, Frederico Sampaio. Na visão dele, o efeito será pequeno sobre a decisão do investidor estrangeiro de aplicar em ativos brasileiros e, consequentemente, sobre o câmbio. Sampaio acrescentou que já esperava, cedo ou tarde, uma reação do governo ao aumento da migração dos investimentos estrangeiros para o mercado americano. "O grande impacto veio com o anúncio da criação do IOF."

Para o economista-chefe do WestLB, Roberto Padovani, diante das expectativas de ganho da bolsa, não é 1,5% que fará o estrangeiro deixar de comprar ativos brasileiros. "Os efeitos (da medida) continuarão limitados tanto para o câmbio como para a bolsa", diz.

Na visão do economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo Silveira, o tributo elimina a arbitragem em favor dos ADRs em relação às ações negociadas no Brasil. Ele concordou, entretanto, que o resultado da medida será só uma turbulência temporária, sem impacto relevante sobre o fluxo de recursos para o mercado brasileiro.

Em relação à taxa de câmbio, ela continuará reagindo à combinação de sólidos fundamentos da economia e de empresas do país com o enfraquecimento do dólar no mercado internacional de divisas, destacou o economista-sênior do Banco Espírito Santo (BES), Flávio Serrano. "No curtíssimo prazo, poderemos assistir à apreciação do dólar, mas a medida não altera o processo de valorização do real."

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, acredita numa reação negativa dos agentes nos próximos dias, dado que a medida comprova a disposição do governo de intervir no mercado. Num primeiro momento, isso deve distanciar os estrangeiros, mas o governo tem a necessidade de fechar as lacunas abertas com a taxação do IOF no mercado local, disse.