Título: Serviços dão nova vida a consórcios
Autor: Júnior , Altamiro Silva
Fonte: Valor Econômico, 07/12/2009, Finanças, p. C1
Depois de seis anos de namoro, Vanessa Aparecida Barroso, auxiliar jurídica que mora na zona norte de São Paulo, planeja casar em 2010, mas não tem dinheiro para a festa. Procurou um banco para pedir crédito e achou o juro muito alto. Ficou sabendo, então, de um novo tipo de consórcio de serviços, que surgiu em fevereiro deste ano, após a aprovação de mudanças na legislação do setor.
Vanessa já havia contratado um consórcio de imóveis. Procurou sua administradora, a Embracon, e resolveu contratar um de serviços. Em setembro, aderiu a um grupo de 36 meses. Paga R$ 260 por mês para uma carta de crédito de R$ 7 mil. "Se fosse em um banco, pagaria mais de R$ 400 por mês e a burocracia seria muito maior, além dos juros muito altos", diz ela. O dinheiro será usado para pagar o casamento, planejado para dezembro de 2010. "Mas como segunda opção pensei em uma cirurgia plástica", diz Vanessa.
O consórcio de serviços chega em um momento em que o setor bate recorde de vendas, principalmente em carros, motos e imóveis. No começo do ano, a falta de crédito bancário estimulou as vendas, que ganharam reforço extra com a nova lei para as administradoras, que trouxe maior visibilidade ao setor. Ao todo, 1,29 milhão de novas cotas foram vendidas de janeiro a agosto, crescimento de 14%. O total de participantes chegou a 3,77 milhões, segundo dados mais recentes da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac) e do Banco Central.
Pesquisa da Abac mostra que 19 empresas já oferecem a modalidade de serviços. O número ainda é pequeno. Existem mais de 170 administradoras no país. "Está todo mundo avaliando esse segmento, que é novo e exige mais critério na análise do cliente", diz Idevaldo Rubens Mamprim, presidente do conselho nacional da Abac.
A Rodobens fechou mil cotas do novo produto. "Ainda é embrionário, mas o potencial é grande", diz Sebastião Cirelli, diretor executivo da empresa. A carteira da Rodobens supera 117 mil clientes. Mas Cirelli avalia que o consórcio de serviços teria potencial para atingir ate 50% desse volume. Um dos focos é a baixa renda. "Com a economia estável, o sistema é uma possibilidade para que as pessoas tenham condições de poupar e se programar", diz Cirelli.
A Embracon foi uma das primeiras a oferecer esse consórcio. Formou até agora quatro grupos de 144 pessoas, conta Mizael Catharino, gerente comercial da administradora. "Acreditamos que gradativamente esse produto será um canal de realização de sonhos. É um nicho promissor pela diversidade de utilização dos créditos."
A carioca Priscila Lima dos Reis quer usar os recursos quando for contemplada para decorar sua futura clínica de estética. O dinheiro, cerca de R$ 22 mil, será usado para pagar o arquiteto responsável pelo projeto. Concluindo o curso de direito e ainda trabalhando na empresa da família, a ideia dela é montar um negócio próprio.
"Pretendo fazer uma espécie de ambiente de beleza", diz. Priscila paga R$ 700 por mês a Rodobens, em um plano de 24 meses. "Essa é uma maneira de guardar dinheiro. E é menos burocrática, porque se quiser, posso usar o dinheiro para outras coisas como uma viagem ou o casamento", diz.
Cirurgia plástica, tratamento odontológico, pagamento de cursos, reformas, projeto de arquitetura e tratamento estético são até agora os preferidos das pessoas contempladas, segundo pesquisa da Abac. De um grupo de 222 contemplados analisados, 25 optaram por saúde e estética (dos quais 18 utilizaram o dinheiro para cirurgia plástica). As cartas de crédito variam de R$ 2 mil a R$ 38 mil, com prazo médio de 39 meses.
"Vamos olhar de perto esse mercado, como está a demanda e podemos lançar algo em 2010", diz Fábio Braga, gerente do Porto Seguro Consórcio. De janeiro a outubro, a Porto, focada em consórcio de imóveis, vendeu R$ 1,2 bilhão em créditos, expansão de 5%.
Além de criar o consórcio de serviços, a nova legislação ajudou a estimular as vendas de outras modalidades. Até então, o consórcio, produto típico do Brasil, não tinha regulamentação própria. "A lei deu maior visibilidade e trouxe maior credibilidade para o sistema", diz o presidente da Abac.
Outra mudança da nova lei é que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) também pode ser usado para quitar ou abater do saldo devedor, a exemplo do que já era permitido para o financiamento imobiliário. "As vendas de consórcio de imóveis cresceram 15% de janeiro a outubro", afirma Cirelli, da Rodobens. Na Porto, em setembro elas bateram recorde na empresa, com alta de 16%.
Enquanto algumas administradoras procuram a baixa renda para vender consórcios, o HSBC foi na direção oposta. O banco acabou de lançar um consórcio para alta renda, afirma Antonio Barbosa, diretor da área. A modalidade atende carros importados de até R$ 240 mil, desde um Mini Cooper até uma BMW 325. Segundo Barbosa, é mais uma oportunidade de o banco atrair novos clientes.