Título: Lula chega e assume após 72h de palanque de Dilma
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 16/12/2009, Especial, p. A14

Nas 72 horas em que esteve à frente das negociações, a chefe da delegação brasileira na conferência do clima, Dilma Rousseff, articulou uma aliança com China, Índia e África do Sul, criticou a reticência dos países ricos em relação a um acordo mais ousado e disse que nos próximos dias anunciará quanto o Brasil já gasta em ações de combate às emissões de gases do efeito estufa. Segundo a ministra, não é coisa na casa do bilhão ou da dezena de bilhão de dólares, mas da "centenas de bilhões".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva amanhece hoje em Copenhague, sede da conferência, e assume o comando das negociações ao lado do chanceler Celso Amorim. A aliança que a ministra encaminhou com China, Índia e África do Sul foi classificada por outros integrantes da delegação brasileira, governamentais e não governamentais, como uma "roubada", pois enquanto China e Índia podem ser considerados países com ar sujo, o problema do Brasil são as queimadas. Além disso, o país já tem uma meta de emissões aprovadas pelo Congresso.

"Quando se trata de proclamar sua força, a China divulga o PIB; quando vira emergente, fala em renda per capita", ironizou o deputado Zequinha Sarney, ex-ministro do Meio Ambiente, que acompanha a senadora Marina Silva (PV-AC) na CoP-15.

Dilma pretendia fazer um detalhamento das negociações a Lula no café da manhã de hoje, no Hotel d"Angleterre, no centro de Copenhague. Enquanto esteve à frente da delegação, Dilma fez relatos diários a Lula. As críticas ao encaminhamento dado pela ministra são no sentido de que o Brasil deveria ter assumido uma posição de liderança, em vez de ficar atado aos interesses dos outros três países com os quais se aliou.

"Discussões de colchetes", assim classificaram ao Valor fontes de acompanharam as conversações, numa referência ao fato de que elas seriam mais adequadas a diplomatas com longa quilometragem nas mesas de negociação. Lula antecipou a viagem, mas, informado permanentemente dos passos da ministra em Copenhague, não fará mudanças de fundo no curso dado por ela às negociações.

Os argumentos defendidos por Dilma são voz corrente no governo federal: os países ricos, especialmente os Estados Unidos, querem botar uma trava no desenvolvimento de emergentes como Brasil, China, Índia e África do Sul. Dilma também expressa a vontade de Lula quando afirma que não são os países em desenvolvimento que devem contribuir com recursos financeiros para "mitigar" as emissões dos gases do efeito estufa, mas aqueles que desde a revolução industrial desmataram e poluíram para se desenvolver.

"Cheque, que cheque?", irritou-se a ministra ao ser questionada sobre a proposta de o Brasil espontaneamente fazer uma contribuição de US$ 1 bilhão para o fundo para as ações de "mitigação". Segundo Dilma, uma pergunta com endereço errado. "É fundamental que nós exijamos, primeiro, dos países desenvolvidos, que coloquem seus números sobre a mesa. Primeiro, vamos saber que ações serão financiadas, qual o montante".

A proposta de o Brasil tomar a iniciativa de efeito simbólico fora feita na véspera pela ex-ministra do Meio Ambiente, a senadora Marina Silva (PV-AC), e apoiada pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB), seus eventuais adversários na disputa sucessória de 2010. Nos bastidores, a ministra Dilma chegou a comentar, com auxiliares, que não estava na capital da Dinamarca para fazer gestos (simbólicos), e sim para negociar concretamente em nome do Brasil.

Bem ou mal, Dilma fica em segundo plano com a chegada hoje de Lula. Mas a ministra da Casa Civil soube aproveitar essas 72 horas para se expor intensamente, o que é indispensável para quem tem como objetivo se tornar conhecida nacionalmente e vencer uma eleição presidencial. Serra volta hoje para o Brasil. Marina Silva fica até o final e ontem criticou a forma desenvolvimentista como Dilma supostamente encara as questões de ambiente.

"Eu prometi que vou divulgar os números, as nossas ações serão muito expressivas", afirmou Dilma. "Vou divulgar uma estimativa aproximada. São números muito expressivos, em termos de bilhões de dólares, centenas de bilhões de dólares." Nas contas que estão sendo feitas por Dilma entram desde obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como a revitalização e a transposição do rio São Francisco, até as ações para combater a desertificação de áreas do Rio Grande do Sul.

Dilma acredita que os países desenvolvidos não formam um grupo único na CoP-15. "Têm disposição de redução maior, como é o caso da Noruega e da União Europeia. Mas há menores também". A ministra diz que cobrou do presidência da CoP-15 versões que circularam na conferência às quais o Brasil não teve acesso. A resposta foi que nada seria levado ao plenário sem o conhecimento da delegação brasileira. "Cada vez mais se chega a um acordo no plano técnico", disse.