Título: Cenário externo ajudou a segurar apreciação do real
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 17/12/2009, Opinião, p. A12

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está convencido de que "estancou" a valorização do real com a criação do IOF sobre os investimentos estrangeiros e alguma ajuda externa. "Estabilizamos o câmbio há 50 dias, quando a cotação do dólar estava a R$ 1,70. Hoje está em R$ 1,77. Com o IOF evitamos uma bolha no mercado de ações e no câmbio. Sem ele, o dólar fatalmente chegaria a R$ 1,50", disse o ministro em entrevista ao Valor (15/12/2009).

Mantega se disse "tranquilo" com a situação cambial e, aparentemente, deixou de lado outras mudanças no momento. O mercado esperava alguma flexibilização cambial. Há algumas semanas, o ministro deixou o mercado alvoroçado com essa possibilidade ao dizer que a cotação do dólar deveria ser de R$ 2,60. Agora, afirmou não acreditar que a cotação atingirá esse nível. "Nem precisamos disso", desdenhou.

Nem todos têm a mesma confiança do ministro Mantega em relação à eficiência do novo imposto no câmbio. O governo decidiu aplicar um IOF de 2% sobre os investimentos estrangeiros em renda fixa e ações a partir de 20 de outubro e, um mês depois, criou uma taxa de 1,5% sobre os recibos de depósitos de ações brasileiras negociadas em Nova York (os ADRs). O objetivo é conter a entrada de dólares e segurar a apreciação do real.

O fluxo cambial financeiro até subiu depois do IOF, excluindo o movimento de outubro, que foi extraordinário por causa da venda de ações do Santander. A média diária do fluxo cambial financeiro está em US$ 127 milhões na primeira quinzena deste mês, estável relativamente aos US$ 122 milhões de média diária de novembro. O saldo total do fluxo de câmbio para o Brasil acabou caindo da média diária de US$ 195 milhões em novembro para US$ 133 milhões em dezembro por causa do recuo das exportações na primeira semana do mês.

Apesar disso, o Banco Central (BC) retirou do mercado à vista nos leilões diários de compra US$ 1,942 bilhão, além do excedente. Os bancos já apostam na alta do dólar porque estão mantendo posições compradas tanto à vista quanto no futuro.

A realidade é que, nos últimos dois meses, o dólar se recupera no mundo todo. Do início do ano até 20 de outubro, o dólar caiu 27,9% em relação ao rand sul-africano; depois desse dia, subiu 1,27% até 15 de dezembro. Em relação ao euro, a queda foi de 7,7% no ano até 20 de outubro; desde então, subiu 2,8%. Em relação ao real, foi o mesmo: queda de 33,7% no ano até o dia 20 e alta de 0,5% depois disso até terça-feira.

O dólar começou a se recuperar depois da divulgação de dados sinalizando alguma recuperação da economia americana, o que recolocou em cena a expectativa de elevação dos juros dos Estados Unidos. As turbulências em Dubai e Grécia também ajudaram.

Nesta semana, o dólar atingiu a maior cotação em dois meses em relação ao euro depois da divulgação de que a produção industrial dos EUA cresceu 0,8% em novembro. O número é pífio, mas ficou acima do 0,5% esperado pelo mercado e veio depois de um outubro em que a produção industrial não se mexeu. A produção de bens de consumo aumentou 0,3%, animada pelas políticas de estímulo. Na ponta do varejo, a economia americana também melhora. As vendas de varejo subiram 1,3% em novembro, o dobro dos 0,6% previstos pelo mercado, e já haviam aumentado 1,1% em outubro. Outra boa notícia que valorizou a moeda americana foi a queda do desemprego para 10% em novembro.

Esses números levam o mercado a especular que o fim da política de juro zero do Fed está mais próximo do que o esperado. A elevação do juro americano deve dar um impulso ao dólar.

Antes mesmo do estouro da bolha imobiliária, os economistas se preocupavam com o perigo dos déficits gêmeos americanos. O déficit em conta corrente chegou a 6% em 2006. A desvalorização do dólar corrigiu em boa parte esse número explosivo, que caiu pela metade.

Mantega também disse contar com o déficit em conta corrente "que vamos ter" para segurar o câmbio. A escassez de poupança interna levará a um aumento do déficit em conta corrente para financiar o esperado crescimento da economia brasileira no próximo ano. Alguns estimam que sairá de pouco mais de 1% neste ano para mais de 3% em 2010. Se a Fazenda se preocupasse em reduzir as despesas e o déficit fiscal , o país teria condições de bancar seu crescimento com menos dependência do investimento externo.