Título: Somente incluir a Venezuela não resolve :: Paulo Roberto Feldmann
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 17/12/2009, Opinião, p. A13

Com a aprovação pelo Senado brasileiro, nesta terça feira, a Venezuela está praticamente dentro do Mercosul . Agora só falta a concordância do Paraguai. Trata-se de uma boa notícia mas infelizmente não é suficiente para o que a América do Sul precisa.

Discutiu-se muito se a Venezuela deveria ou não fazer parte do Mercosul, no entanto o que deveríamos mesmo é pensar numa solução muito mais ampla e efetiva que seria a criação de uma Zona de Livre Comércio abrangendo todos países da região. O Mercosul é importante mas ele abrange apenas 61 % da produção econômica da América do Sul . Por que não incluir todos demais países criando uma Zona de Livre Mercado do nosso continente?

Aliás é interessante que quando se fala em expandir o Mercosul apenas se cogita de Chile e Venezuela como os dois países mais importantes para se agregar aos quatro fundadores do Mercosul - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No entanto existem outros quatro países que poderiam trazer uma nova dinâmica muito importante para o nosso continente que são a Bolívia, Colômbia, Peru e Equador. A Bolívia, que é o menor desses países em termos econômicos, possui as maiores reservas mundiais de lítio, que é a matéria-prima cada vez mais importante para fabricação de baterias, inclusive dos futuros automóveis elétricos.

Ou seja, para que a América do Sul seja mais expressiva em termos de participação na economia mundial, nada melhor que estimular a criação de uma Zona de Livre Comércio em todo o nosso continente.

Em 1960, a economia dos Estados Unidos medida pelo seu PIB era 18 % maior que toda a economia europeia . Hoje a Europa possui um PIB maior que o dos Estados Unidos. O processo que levou a isso durou quase meio século e foi fortemente baseado no livre comércio. Ou seja, ainda nos anos 50 criou-se o Mercado Comum Europeu (MCE), que resultou na eliminação de tarifas nas transações comerciais entre os então países signatários. Com o MCE não só as mercadorias passaram a circular livremente entre os países mas também pessoas e trabalhadores conseguiram se realocar com mais facilidade.

Esse fato não é o único exemplo de como a redução ou eliminação de tarifas comerciais pode facilitar muito o incremento do comércio entre países e o consequente desenvolvimento dos mesmos. Casos análogos aconteceram em diversas sub regiões da Ásia. Zonas de livre comércio se mostraram extremamente vantajosas e acabaram por promover não apenas o aumento da atividade comercial - exportações e importações - mas também a especialização, de tal forma que cada país se concentrou em fabricar produtos ou oferecer serviços onde ele apresenta vantagens competitivas em relação a seus vizinhos.

Em 1994 o então presidente Itamar Franco numa reunião de todos países do continente em Santiago do Chile lançou a ideia e as bases da Área de Livre Comércio Sul Americana (ALCSA), mas, infelizmente, ela não saiu do papel e hoje se prefere incorporar a Venezuela ao Mercosul ao invés de se discutir a criação da ALCSA que seria muito mais efetiva para nos integrarmos com todos nossos vizinhos.

Evidente que se existe um país que deve liderar esse processo, é o Brasil pois em termos geográficos, demográficos e econômicos também é o maior do continente. Mas talvez exista uma outra razão ainda mais importante para nosso país ser o líder desse processo: para nossas empresas é fundamental. O mercado sul-americano pode propiciar às empresas brasileiras a escala que ainda lhes falta para conseguir uma maior atuação global.

Entre os 32 países que vão disputar a próxima Copa Mundial de Futebol em 2010 na África do Sul, cinco são sul-americanos - Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Ou seja, mais de 15% do total de países é do nosso continente. Isso é ótimo, mas bom mesmo seria se nossa participação na economia mundial também fosse dessa ordem. Infelizmente, apesar de sermos 6% da população do planeta, nossos PIBs somados não chegam a 3,5% do PIB mundial e a participação de todos os países sul-americanos no comércio internacional não ultrapassa os 2,5%.

Mas não é só pelo bom futebol que a América do Sul é importante para o globo: Ela é altamente estratégica para o futuro da humanidade por conta da floresta amazônica que se espalha por nove países - Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela - do continente. A Amazônia possui cerca de 26% de toda biodiversidade, ou seja - de todas as espécies existente na Terra. Em outras palavras podemos dizer que na floresta Amazônica residem 26% de todas as sequências de DNA que a natureza combinou. Por isso a Amazônia tem uma vantagem competitiva inigualável que é a riqueza de sua biodiversidade, matéria-prima fundamental do ramo da ciência que promete ser um dos mais importantes do século XXI que é o biotecnologia.

A variedade de espécies animais e de plantas existentes nos ecossistemas amazônicos representa o maior arquivo biológico conhecido de genes, moléculas e microorganismos. Isso quer dizer que a biodiversidade amazônica contém a chave para o desenvolvimento de inúmeros produtos como remédios, alimentos, fertilizantes, pesticidas, plásticos, solventes, cosméticos, têxteis, fermentos.

Em suma temos muito a oferecer ao mundo além dos nossos maravilhosos craques e times de futebol, especialmente neste momento em que o planeta está às voltas com a busca de novas formas de energia não poluentes e de formas para se conseguir a redução na emissão de gases tóxicos.

E graças a uma situação econômica favorável em tempos de crise mundial, o Brasil está atravessando um momento único em termos de projeção e respeito internacional . Nosso país tem sido matéria de capa das principais revistas e jornais europeus e norte americanos. Não seria a hora de apoiar para valer a integração com nossos vizinhos sul-americanos apoiando o livre comércio efetivo na região e liderando a discussão sobre o futuro da Amazônia?

Paulo R. Feldmann é professor da Faculdade de Economia da USP. Foi presidente da Eletropaulo e diretor da Microsoft. É um dos coordenadores do PNBE- Pensamento Nacional das Bases Empresariais e diretor do Centro do Comércio da Fecomércio.