Título: Colapso do Estado dificulta ação de resgate e de socorro no Haiti
Autor: Forelle , Charles
Fonte: Valor Econômico, 18/01/2010, Internacional, p. A11
Entre as muitas vítimas do terremoto no Haiti está o governo do país, com seus palácios da belle époque no centro da cidade reduzidos a escombros e muitas autoridades mortas ou sem ter onde ficar. Um dos desabrigados é o próprio presidente, René Préval.
O que sobrou do governo agora tenta coordenar um esforço caótico de ajuda aos sobreviventes na sombra de mangueiras no quintal de uma delegacia, de onde Préval passou a despachar.
O primeiro-ministro, Jean-Max Bellerive, disse numa entrevista ao "Wall Street Journal", na sala de espera de concreto da delegacia, que o governo recolheu 20 mil corpos das ruas da capital. Todos foram levados para covas coletivas. Ele disse que espera muito mais.
"Não posso dizer quantos mortos realmente há. Só posso dizer quantos já recolhemos", disse Bellerive com seu boné, um homem robusto que assumiu o cargo em novembro. "O governo haitiano já recolheu 20 mil corpos. Isso não inclui as pessoas recolhidas pelas organizações internacionais. Isso não inclui as pessoas sepultadas pelos familiares ou levadas a outros lugares. E certamente não inclui as pessoas que ainda estão soterradas nos escombros."
As estimativas do número de mortos no terremoto variam muito. A Cruz Vermelha calcula que ao menos 45 mil morreram, enquanto autoridades do governo haitiano dizem que o total da tragédia pode facilmente superar 100 mil.
O governo do Haiti nunca foi eficiente quando as coisas estavam indo bem. Mas agora enfrenta problemas que desafiariam até os melhores governos do mundo. A capital está quase em ruínas, a maioria dos telefones fixos e celulares não funciona, há pouca eletricidade e centenas de milhares de pessoas precisam de socorro urgente.
O impacto emocional também é grande. Entre as vítimas há pelo menos dois senadores haitianos e parentes próximos de ministros. As autoridades haitianas disseram que o ministro da Fazenda perdeu um filho, e o do Turismo, os pais.
Para dificultar ainda mais, o parceiro estratégico do Haiti - a ONU - também sofreu perdas pesadas. As autoridades da ONU confirmaram sábado a morte de suas três maiores autoridades no país: o veterano chefe da missão, o diplomata tunisiano Hedi Annabi; seu braço-direito, o brasileiro Luiz Carlos da Costa; e o chefe interino da polícia, o canadense Doug Coates.
Ministros e outras autoridades de governo circulavam pelo quintal da delegacia. O ministro das Minas e Energia da República Dominicana conversou por alguns minutos com Bellerive sobre um carregamento de geradores. "Estamos prontos a ajudá-los a nos ajudar", respondeu Bellerive. A ministra da Cultura e da Comunicação, Marie Laurence Jocelyn Lassègue, sentava a uma mesa de plástico, com a sogra, enquanto atendia a telefonemas e mensagens de rádio.
Alguns minutos depois, Préval chegou num jipe e deu uma inesperada entrevista coletiva. Perguntado sobre o total de mortos, disse que "há escolas que desmoronaram - há 200 a 300 [mortos] lá. Fábricas que desmoronaram - lá há mil [mortos]. Eu não posso nem imaginar qual será o total".
A ajuda está chegando, disse, mas o esforço é "espontâneo". "Todo mundo traz o que pode. Isso precisa ser coordenado."
Mais tarde, Préval se reuniu com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, para discutir a coordenação da ajuda. Clinton chegou ao Haiti sábado, num cargueiro C-130 da Guarda Costeira americana carregado com água, alimentos, sabonetes e outros mantimentos. Ela realizou um breve voo de helicóptero pela cidade devastada.
Coordenar o socorro não é tarefa fácil. Bellerive, o primeiro-ministro, disse que o governo acredita que 300 mil famílias estão vivendo nas ruas na capital. A principal prioridade é transferir as pessoas para algum lugar onde recebam água e alimentos mais facilmente.
Michel Chancy, ministro do Haiti encarregado da distribuição de alimentos, disse que a capacidade de produção de refeições estava crescendo. Cozinhas portáteis vindas da República Dominicana prepararam 10 mil refeições quentes na sexta-feira, um programa do governo haitiano distribuiu outros milhares e o Programa Alimentar da ONU está distribuindo rações emergenciais de biscoitos.
"Acho que logo teremos capacidade para 200 mil refeições diárias", disse ele. Mesmo assim, "as 80 mil refeições que vamos distribuir hoje não são nada se comparadas ao que as pessoas precisam".
Ainda não está claro como as centenas de milhares de pessoas que vagam pelas ruas de Porto Príncipe vão receber água e alimentos. Chancy disse que o governo criou cerca de cem centros de distribuição na cidade, mas preferia não revelar os locais para evitar que atraiam gente demais.
Ele disse que o governo assumiu o controle de duas usinas privadas de tratamento de água e começou a mandar o líquido para a capital em 50 caminhões. Ele disse esperar que dentro de uma semana o governo comece a distribuir 2,3 milhões de litros por dia na capital.
Enquanto isso, René Jean-Jumeau, do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, tentava fazer com que as rádios haitianas aconselhassem as pessoas a se organizar por conta própria enquanto esperam pela chegada do socorro. "A mensagem pede que as pessoas fervam a própria água. Se o vizinho perdeu a casa, ele não precisa mais da caixa-d"água", disse Jean-Jumeau. "Use essa água, ferva-a."
Antes mesmo do terremoto, o Haiti era um lugar caótico com pouca infraestrutura e um cenário político nebuloso. Bellerive, por exemplo, é o sexto primeiro-ministro desde 2004.
"O maior problema que enfrentamos no Haiti é que não temos um Estado", disse Frantz Verella, ex-ministro de Obras Públicas. Perto dele, tropas das Nações Unidas tentavam organizar uma multidão de pessoas e uma fila de carros que espirrava de um posto de gasolina. As pessoas se empurravam para tentar conseguir combustível, produto extremamente raro na capital haitiana nos últimos dias.
Na terça-feira, logo após o terremoto, Verella acompanhou Préval na inspeção da cidade devastada. "Só tínhamos três lambretas em funcionamento e com gasolina", disse. Ele foi numa, o chefe de polícia na segunda. Préval e seu chefe de segurança dividiram a terceira.
Gabriel Verret, assessor de economia do presidente, disse que o governo está muito preocupado com a possibilidade de epidemias e defendeu a iniciativa de enterrar as vítimas em covas coletivas. "Não temos um hangar refrigerado com capacidade para guardar os corpos", disse ele. "Nossa preocupação maior é com os vivos e não com os mortos."