Título: Desemprego vai manter a onda protecionista até 2011, avalia Lamy
Autor: Lucchesi , Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 19/01/2010, Brasil, p. A2
A "pulsão protecionista" que se intensificou com a retração no comércio internacional em 2009 e o aumento do desemprego vai se manter neste ano e no próximo, na visão do diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Segundo ele, o protecionismo tem forte relação com a situação nos mercados de trabalho, que deverão continuar a piorar em 2010 e 2011. "Sou prudente em relação ao futuro", disse ele durante palestra na Conferência de Risco País realizada pela seguradora francesa Coface, no Pavillon Ledoyen, no centro de Paris.
"Essa tendência protecionista em meio à crise é normal e legítima, mas precisamos continuar a resistir a ela", afirmou. Lamy clamou a todos os países participantes da Rodada Doha de negociação para o livre comércio que se empenhem para conclui-la ainda neste ano, de forma a ajudar a combater as tendências mais protecionistas. "As negociações vão voltar a acontecer no final de março e mais de 80% do trabalho já está feito", afirma. Doha, com foco em subsídios agrícolas, começou em 2001 e estava prevista para acabar em 2006.
Lamy vê um novo "descolamento" dos países emergentes em relação aos países mais ricos no que diz respeito à queda no comércio internacional neste ano. Em 2009, os emergentes já foram melhor: na comparação com 2008, o tombo foi de 10%, no comércio global, com os países em desenvolvimento apresentando tombo de 6% e os países ricos, de 12%. "No pior momento de crise, em meio ao choque, a queda chegou a 30% no valor e 20% no volume", afirmou ele.
Ele destacou a retração no comércio de produtos manufaturados, que registraram retração de vendas de 20% em 2009 na comparação com 2008. "A recuperação do comércio será mais provável nos países emergentes", disse.
O diretor-geral da OMC destacou que a crise financeira atingiu em cheio o crédito ao comércio exterior, ajudando na retração das importações e exportações no mundo todo. Segundo ele, o acordo de Basileia II, que regulamenta a alavancagem dos bancos, também não ajuda, pois o peso do comércio exterior no balanço dos bancos passa a ser o mesmo que dos "produtos tóxicos".
Lamy sugeriu que organismos multilaterais, como o Banco Mundial e o FMI, e que as agências de crédito à exportação dos países ricos tenham uma atuação mais ativa no crédito aos países mais pobres, que mais sofreram com a crise. Seria uma forma, diz ele, de reduzir o clima de rivalidade crescente entre os países em desenvolvimento e os países ricos, que criaram a bolha de endividamento e foram dessa forma os grandes responsáveis pela crise.