Título: EUA rejeitam ajuda financeira à China ligada ao clima
Autor: Chiaretti , Daniela
Fonte: Valor Econômico, 10/12/2009, Especial, p. A10
A China não receberá financiamento significativo dos Estados Unidos para combater as mudanças climáticas, segundo afirmou ontem o chefe da delegação americana na conferência do clima da ONU em Copenhague.
A declaração chocou muitos negociadores e fez parte de um ataque mais abrangente dos EUA contra a China e outros países em desenvolvimento por não se comprometerem a fazer concessões mais profundas na contenção de suas emissões de gases causadores do efeito estufa.
"Não antevejo fundos públicos, certamente não dos EUA, indo para a China", afirmou Todd Stern, enviado especial do país para questões de mudanças climáticas e principal negociador americano em Copenhague. "Pretendemos direcionar nossos fundos públicos para os países mais necessitados."
Stern afirmou que a China é rica o suficiente para financiar os seus próprios esforços e rejeitou firmemente a ideia de que os EUA e outros países desenvolvidos devem "reparações" pelas emissões do passado.
A China vem encabeçando os países em desenvolvimento na exigência de receber fundos dos países ricos como forma de financiar a redução das emissões e a adaptação aos impactos das mudanças climáticas, como preço para corroborar um acordo sobre as questões climáticas.
Autoridades chinesas não quiseram responder quando questionadas sobre o financiamento, mas voltaram a pedir mais cortes nas emissões dos EUA.
Outros países em desenvolvimento acusam o Ocidente de pressionar por um acordo "injusto e desigual". Insistem, também, que precisam de maior apoio financeiro para adotar tecnologias verdes e adaptar-se às mudanças climáticas.
A maior veemência nas declarações indica a intensificação das negociações da Organização das Nações Unidas (ONU) na capital dinamarquesa, com as quais se tenta conseguir um novo acordo sobre o aquecimento mundial.
O sudanês Lumumba Di-Aping, que preside o G-77, grupo de países em desenvolvimento, acusou os EUA, a Europa e seus aliados de tentar uma "tomada de poder [via] Bretton Woods" das negociações - referindo-se ao uso do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Di-Aping afirmou que esses governos estão tentando "destruir o equilíbrio de obrigações" entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos.
O mundo industrializado possui a "responsabilidade histórica" de arcar com a maior parte dos encargos, disse ele.
A China será responsável por 50% do aumento nas emissões de dióxido de carbono nos próximos 20 anos e emitirá 60% mais gases causadores de efeito estufa que os EUA até 2020, segundo Stern. Per capita, porém, os chineses continuarão emitindo bem menos.
O Reino Unido lidera um pequeno grupo de países, que inclui México, Noruega e Austrália, que tenta obter um compromisso de financiamento dos cortes de emissões nos países pobres. Sua proposta, elaborada pelo México, prevê que todos os países, incluindo as grandes economias emergentes, como a China, e excluindo apenas os países mais pobres, contribuam para um fundo que seria destinado aos mais necessitados.
Os principais governos ainda não responderam à proposta, que será discutida na conferência.
Mais de cem chefes de Estado e de governo, incluindo o presidente dos EUA, Barack Obama, deverão participar do último dia da conferência, em 18 de dezembro.
Stern afirmou que, embora um tratado obrigatório esteja fora de alcance em Copenhague, os EUA desejam que as negociações "avancem com velocidade total" em direção a um texto legal o mais cedo possível.
Não há chance de os EUA se juntarem ao Protocolo de Kyoto - tratado internacional sobre mudanças climáticas acertado em 1997 -, mas há partes desse pacto que o país aceitaria como parte de um novo acordo. Muitos países em desenvolvimento pressionam para que o Protocolo de Kyoto seja mantido como parte de um novo tratado.
"Não vamos seguir Kyoto e não vamos seguir Kyoto com outro nome", disse Stern.