Título: Demanda interna retoma ritmo chinês
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2009, Brasil, p. A3

O padrão de crescimento da economia brasileira no ano que vem vai se assemelhar ao que vigorou entre 2006 e 2008, com a demanda interna - incluindo investimento - crescendo a taxas quase chinesas e as importações avançando muito mais rápido que as exportações. Para os analistas que projetam expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 6% ou mais em 2010, haverá alta superior a 8% para o conjunto formado por consumo das famílias, consumo do governo e investimentos e variação de estoques - a demanda doméstica. O setor externo, por sua vez, poderá "roubar" até 2,8 pontos percentuais da variação do PIB, justamente por causa da esperada expansão mais intensa das compras do que das vendas externas.

Há consenso de que em 2010 haverá uma aceleração significativa do consumo das famílias e do investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos (a formação bruta de capital fixo, FBCF), componentes da demanda que já lideraram a alta do PIB a partir do segundo trimestre deste ano. "A divergência é apenas quanto à intensidade com que a demanda doméstica vai avançar", resume o economista Cristiano Souza, do Santander. Também se espera um crescimento razoável do consumo do governo, já que as despesas públicas tendem a seguir avançando a taxas elevadas.

O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, acredita que o consumo das famílias deverá passar de um crescimento de 3,3% em 2009 para 6,1% em 2010, refletindo o cenário favorável para o emprego e a renda, o aumento expressivo para o salário mínimo e a oferta abundante de crédito, com juros baixos - para padrões brasileiros - e prazos longos. Há quem projete alta ainda mais forte, como o economista-chefe do J. P. Morgan, Fábio Akira, que vê expansão de 6,8%.

Já o investimento deverá crescer bem mais, por causa das perspectivas positivas para a construção civil, da redução gradual da ociosidade na indústria e da expectativa de crescimento mais forte nos próximos anos. Borges estima alta de 20,4% e Akira, de 18,2%, números também influenciados pela fraca base de comparação - a FBCF deve cair algo na casa de 10% neste ano.

Amparada pelo desempenho do consumo das famílias e do investimento, a demanda doméstica deverá contribuir com oito pontos percentuais para o crescimento esperado de 6,1% no ano que vem, diz Borges. Com peso de 17% no PIB, o investimento sozinho deverá contribuir com 3,5 pontos para a expansão da economia em 2010, quase o mesmo que os 3,8 pontos do consumo das famílias, que responde por mais de 60% do PIB, segundo estimativas da LCA.

Será uma mudança significativa em relação ao cenário deste ano, quando a demanda interna deve tirar algo como 0,6 ponto do PIB, avalia Borges. Isso vai ocorrer por causa da forte retração da FBCF e do ajuste de estoques, acredita ele, que projeta PIB zero em 2009.

A colaboração do setor externo para o PIB também deverá se inverter em 2010. Nas contas da LCA, ela deve ser positiva em 0,5 ponto em 2009, devido à queda mais forte das importações do que das exportações. Em 2010, a contribuição será negativa. Com a demanda interna em ritmo quase chinês e o câmbio valorizado, as compras externas deverão explodir, ao passo que as vendas para o exterior tendem a avançar bem menos.

Além do dólar barato, que afeta a competitividade dos produtos brasileiros, a expectativa para o crescimento global não é das maiores, diz Borges. Ele projeta alta de 24,7% para as importações e de 7,5% para as exportações, o que fará o setor externo "roubar" 1,9 ponto percentual do PIB em 2010, estima ele. Para Akira, esse número pode chegar a 2,8 pontos. Ele prevê alta das importações de 32,3%.

"Haverá uma volta ao padrão observado principalmente em 2007 e 2008", avalia Borges. Foram anos em que o consumo das famílias e o investimento também cresceram bastante, enquanto as importações subiram muito mais que as exportações. Em 2008, a demanda interna colaborou com 7,4 pontos percentuais para o crescimento do PIB de 5,1% - o setor externo tirou 2,2 pontos.

Souza, do Santander, aposta em mudanças menos intensas. Para ele, a aceleração da demanda interna será menos significativa do que a projetada por Borges e Akira. A principal diferença é que Souza espera uma expansão mais fraca do investimento, de 8%, bem abaixo dos 20% projetados pelos mais otimistas. Para justificar a previsão mais cautelosa, Souza diz que nunca ocorreu um crescimento dessa magnitude da FBCF, além de notar que a capacidade ociosa ainda existente pode levar empresas a demorar um pouco mais para investir na ampliação da capacidade produtiva. Pelas suas estimativas, a demanda doméstica deve contribuir com 6,3 pontos percentuais para o crescimento do PIB, de 4,8%, enquanto o setor externo vai tirar 1,5 ponto. Como projeta um crescimento mais fraco da demanda interna, ele acredita em alta mais modesta das importações em 2010, de 14,7%.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que o crescimento da demanda doméstica não deverá ser tão intenso quanto o registrado no período imediatamente anterior ao agravamento da crise global. No terceiro trimestre de 2008, ela chegou a avançar a 9%, lembra ele, que aposta num nível mais próximo de 7% em 2010. A grande diferença, segundo Vale, é que a aceleração atual é mais forte do que no ciclo anterior. A demanda interna levou quase três anos, do quarto trimestre de 2005 ao terceiro de 2008, para avançar seis pontos percentuais e bater em 9%. Desta vez, ela poderá demorar um ano para subir oito pontos, saindo do terreno negativo para uma alta de 6,6% no fim de 2010. Para Vale, o investimento vai avançar 12,3% no ano que vem e o consumo das famílias, 5,1%, taxa próxima aos 5% esperados para o consumo do governo, que também vai puxar a economia. Ele vê um PIB de 5% no ano que vem, com uma contribuição negativa de 1,6 ponto do setor externo. As importações, segundo Vale, vão aumentar 12,5% e as exportações, 0,2%.

Para Souza, o aumento mais forte das importações em 2010 terá como função importante atender parte da forte demanda interna, ajudando a conter pressões inflacionárias. Akira observa que isso ajuda a segurar os preços dos bens comercializáveis (os tradables), mas não dos non tradables, como serviços (cabeleireiro, conserto de automóvel, aluguel). Alguns analistas apontam o risco de que o câmbio excessivamente valorizado faça com que parte da indústria brasileira perca espaço para produtos estrangeiros, em especial asiáticos. Nesse quadro, haveria não um processo de complementação, mas de substituição, pelo menos em parte, da produção local por artigos importados.