Título: Bancos brasileiros alongam prazos
Autor: Lucchesi , Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2009, Finanças, p. C1
Os bancos nacionais têm forçado um alongamento de prazos e aumento de valores nos empréstimos sindicalizados externos neste final de ano. Tomam linhas no curto prazo, em dólar, aproveitando os spreads de risco baixos do país, e aplicam por vencimentos mais longos. Alguns bancos estrangeiros com prêmios de crédito menores estão seguindo a mesma toada, mas muitos deles não conseguem competir. Há transações de sete anos de vencimento e de até dez anos em andamento, segundo executivos de bancos ouvidos pelo Valor.
"As maiores empresas brasileiras já estão conseguindo prazos mais longos e prêmios de risco de crédito mais baixos do que as de mesma classificação de risco de crédito nos Estados Unidos", diz Ernesto Meyer, coordenador de financiamento para aquisições e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas. Ele concorda que os bancos nacionais têm participação determinante nesse processo, dada a liquidez maior disponível para Brasil. "Os bancos nacionais têm puxado os alongamentos de prazos nos empréstimos externos sindicalizados", concorda Paulo César Souza, diretor comercial do Société Générale.
O exemplo mais emblemático é o empréstimo da Fibria (Aracruz mais Votorantim Celulose e Papel), de US$ 1,15 bilhão, que acaba de fechar um pré-pagamento à exportação. Foram os banco nacionais Bradesco e Banco do Brasil que apresentaram a alternativa mais barata de linhas de crédito de sete anos na transação e emprestaram os US$ 400 milhões que a empresa tomou nesse prazo. O Bradesco entrou com um total de US$ 300 milhões por sete anos e de US$ 100 milhões por cinco anos, enquanto o BB entrou com US$ 200 milhões por sete anos e mais US$ 200 milhões por sete anos.
Os demais bancos participantes - os americanos J.P. Morgan e Bank of America Merrill Lynch, o alemão Deutsche Bank, o holandês ING e os franceses BNP Paribas e Calyon - entraram com US$ 750 milhões pelo prazo de vencimento em cinco anos. Os bancos estrangeiros não conseguiram acompanhar a agressividade dos nacionais, que ofereceram prêmios de 425 pontos básicos sobre a Libor, taxa interbancária de Londres, para a linha de sete anos, enquanto a linha de cinco ficou apenas ligeiramente mais barata: 400 pontos básicos sobre a Libor.
O empréstimo da Fibria rola dívidas originadas de operações com derivativos da Aracruz, no final do ano passado, de US$ 2,13 bilhões. A dívida foi renegociada em janeiro e o empréstimo agora representa alternativa de mais longo prazo e de juros mais baixos para a empresa, além de ter menos garantias. Os credores nos derivativos eram o J.P. Morgan, o Deutsche, o Itaú BBA, o Goldman Sachs, o Citigroup, o Bank of America Merrill Lynch, o Calyon, o BNP Paribas, o Barclays, o Santander, o ING e a Lehman Brothers. Mas a maior parte deles não entrou no novo empréstimo tomado agora.
Outros casos representativos da nova situação no mercado de empréstimos externos são os da Samarco e da MMX. A Samarco Mineração, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, queria tomar um pré-pagamento à exportação e foi ao mercado tentar levantar US$ 300 milhões por um prazo de cinco anos. Um time de bancos estrangeiros formado pelo BBVA, HSBC, Banco Espírito Santo, Sumitomo e BNP Paribas ofereceu taxas de juros de 250 pontos básicos sobre a Libor para fornecer o total de recursos.
O Banco do Brasil, no entanto, entrou com tudo e conseguiu fazer o empréstimo sozinho para a Samarco. As taxas não foram reveladas, mas os bancos concorrentes apostam que sejam em torno de 210 pontos básicos sobre a Libor ou até menos. O mesmo aconteceu em transação da MMX, que queria US$ 100 milhões por quatro anos. O Safra, que inicialmente iria liderar a transação, acabou ficando com tudo em seu balanço.
O BB e o Bradesco ganham cada vez mais espaço no mercado e têm conseguido participar de todas as mais importantes transações em dólar. Com a atuação dos dois e do Safra, empréstimos de valores de US$ 300 milhões ou menos para empresas de primeira linha acabam se tornando bilaterais, entre um banco e a empresa, e não precisam ser sindicalizadas (quando vários bancos participam de um mesmo empréstimo). Só transações maiores acabam distribuídas para várias instituições financeiras.
O BB e o Bradesco estão entre os participantes de outra transação em andamento, de US$ 500 milhões para a Construtora Norberto Odebrecht. Trata-se de um empréstimo "revolving", uma espécie de cheque especial . A Louis Dreyfus também está com empréstimo no mercado, de US$ 300 milhões, um pré-pagamento à exportação.
Para Alexei Remizov, responsável pela área de mercado de capitais do HSBC, a tendência de 2010 é de a situação de liquidez nos empréstimos continuar favorável para as maiores companhias brasileiras. "O Fed, banco central americano, deve reduzir o dinheiro disponível no mercado, mas de forma suave", acredita.
Há bancos estrangeiros com prêmio de risco de crédito tão alto que ultrapassa o próprio prêmio de risco Brasil. Esses bancos perdem ainda mais competitividade no mercado de empréstimos externos em relação aos brasileiros.