Título: Crédito imobiliário bate recorde no ano
Autor: Travaglini , Fernando
Fonte: Valor Econômico, 22/12/2009, Finanças, p. C1
O crédito imobiliário chega ao fim do ano como a linha de financiamento de maior expansão no pós-crise. Mesmo com o impacto sofrido pelas incorporadoras, que adiaram lançamentos e aproveitaram o período para desovar seus estoques, o volume concedido no ano deve exibir crescimento da ordem de 10%. Para o próximo ano, a expansão pode atingir até 50%.
As liberações em novembro atingiram R$ 3,635 bilhões, volume 58% maior que no mesmo mês do ano passado e o melhor resultado já registrado no país.
Com o forte desempenho dos últimos meses, puxado pela volta dos lançamentos, o acumulado do ano entre janeiro e novembro chegou a R$ 30,187 bilhões, superando o total liberado no ano passado com recursos das cadernetas. Em termos anuais, a expansão é de 10%.
"Em dezembro o ritmo é bom e devemos fechar o ano com nível superior aos R$ 32 bilhões esperados", diz Luiz Antonio França, presidente reeleito da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário (Abecip), para o mandato até 2011.
O novo cenário de otimismo do setor levou a entidade a revisar para cima suas previsões. Diante do volume recorde dos últimos dois meses e do bom desempenho das construtoras, a Abecip acredita que as concessões para a construção de novas unidades e para a compra da casa própria possam chegar a R$ 50 bilhões em 2010, apenas com recursos da poupança, alta de quase 50% em relação ao patamar deste ano, diz França, também diretor do Itaú Unibanco. Além dos recursos da caderneta, o orçamento do FGTS prevê a liberação de R$ 23 bilhões para o setor no próximo ano, fora a verba do programa Minha Casa Minha Vida, que pretende financiar um milhão de moradias até o fim de 2010.
Isso deve elevar o estoque de linhas de crédito imobiliário para pessoas físicas dos atuais R$ 85 bilhões para cerca de R$ 135 bilhões no fim de 2010. Segundo França, a recuperação está sendo mais forte do que se esperava e, em 2010, os bancos que atuam no setor podem atingir marca histórica em novos empréstimos.
Se a expansão esperada se confirmar, a relação do crédito imobiliário em relação ao PIB deve pular de 2,9%, em outubro, para quase 4% no fim de 2010, mesmo com o forte crescimento econômico do país esperado para o próximo ano, na casa dos 5%. Neste ano o estoque de empréstimos para a compra da casa própria já foi uma dos que mais cresceu, atingindo expansão de 43% nos últimos doze meses até outubro. O percentual de 2,9% do PIB, no entanto, ainda é muitas vezes inferior ao registrado em outros países, como Chile (15%), México (11%), Espanha (60%) e Estados Unidos (100%).
A crise não afetou de forma tão acentuada o desempenho das liberações totais, mas mudou a cara do setor. Diferentemente dos anos anteriores, o que permitiu a disparada em 2009 foi o crédito à pessoal física. No início do ano, quando os efeitos da crise ainda era sentidos, a demanda por recursos para novas construções recuou fortemente. No meio do ano, o chamado Plano Empresário, que financia até 80% do valor da obra, registrava recuo de 24%.
Ao mesmo tempo, as vendas de unidades novas e usadas manteve ritmo forte e segurou a expansão do crédito imobiliário, também por conta da estratégia das companhias de desovar o estoque de lançamentos antigos. As concessões para a compra da casa própria atingiram R$ 17,8 bilhões até novembro, avanço de 57,6% em relação ao mesmo período de 2008.
À medida que a crise foi ficando menos severa, as incorporadoras retomaram seus lançamentos e a demanda por recursos para obras voltou com força semelhante ao período pré-crise. "Temos visto empreedimentos que vendem quase 100% das unidades na semana do lançamento", diz França.
Até novembro, as liberações de Plano Empresário atingiram R$ 12,415 bilhões, valor ainda 10% inferior ao ano passado. Mas a tendência é de recuperação e os empréstimos às incorporadoras deve voltar a puxar o crescimento em 2010, prevê a Abecip.
Há também maior disputa no setor com a entrada do Banco do Brasil, em parceria com a Nossa Caixa. A instituição ampliou o limite para as empresas de incorporação e disponibiliza R$ 4,5 bilhões para as 12 maiores do setor. Desse total, cerca de 70% deve ser direcionado para novas obras.
Há ainda o programa do governo federal Minha Casa Minha Vida, que tem atraído construtoras de casas populares. A Caixa Econômica Federal deve fechar o ano com concessões de R$ 40 bilhões em crédito imobiliário, dos quais R$ 11,2 bilhões já são do programa de casas populares. Em relatório para clientes, a Itaú Corretora avalia o resultado como positivo.
"Apesar de acreditarmos que no próximo ano o principal desafio para a Caixa será a contratação dessas unidades para as pessoas físicas, que demandará muito trabalho operacional, vemos a performance da instituição de maneira muito positiva", diz o texto do analista David Lawant.
A recuperação acelerada já preocupa. Segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros, um dos problemas que devem surgir será falta de mão de obra, inclusive de profissionais qualificados, como engenheiros.