Título: PT monta estratégia para diminuir derrota em São Paulo
Autor: Grabois , Ana Paula
Fonte: Valor Econômico, 17/02/2010, Política, p. A5

O PT já dá como certa a derrota da candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, no Estado de São Paulo. Das cinco disputas em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, apenas em 2002 o petista foi vitorioso no primeiro turno no Estado. A disputa entre os dois principais partidos na sucessão presidencial é pela cifra da derrota no maior colégio eleitoral do país, que tem 23% do total e soma 29,5 milhões de eleitores. O objetivo do PT é deixar a ministra, no máximo, a três milhões de votos do candidato tucano.

No PSDB, a conta para dar ao seu provável candidato, o governador de São Paulo, José Serra, a vantagem necessária para neutralizar a dianteira do Norte e Nordeste varia de 4 milhões a 6 milhões de votos. No primeiro turno da eleição presidencial de 2006, o presidente Lula perdeu no Estado por 3,8 milhões de votos para o candidato tucano Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo.

A estratégia traçada pela campanha de Dilma para o confronto com seu possível rival é de retomar áreas que os tucanos avançaram nas duas últimas eleições, como as zonas sul e leste da capital, de grande concentração de eleitoral, parte da população mais pobre e uma parcela de eleitores que ascendeu socialmente no governo Lula. O comando da campanha já programa a visita de Dilma às favelas de Paraisópolis e Heliópolis, as duas maiores da capital paulista, que estão recebendo recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em obras de saneamento e urbanização. A capital concentra 28% dos eleitores do Estado.

No interior, o PT tem como prioridade as cidades de Ribeirão Preto e Bauru, cuja população é predominantemente de classe média. Os dois municípios têm grande influência econômica sobre as cidades do entorno e concentram meios de comunicação. Também estão no foco da campanha presidencial os municípios de São José do Rio Preto, Araçatuba, Santos e São José dos Campos. Juntas, as seis cidades concentram 6,5% do eleitorado do Estado. O PT, no entanto, só tem apoio garantido dos prefeitos de Araçatuba, Cido Sérgio (PT), e de Bauru, Rodrigo Agostinho (PMDB). Cidades governadas por tucanos, como Piracicaba, Sorocaba, Jundiaí e Franca, estão na mira do comando petista. As quatro cidades do Litoral Norte, onde o PT não tem sequer um vereador, também estão entre as prioridades.

O partido espera convencer a ministra Dilma de que cada região do Estado tem mais eleitores do que muitas unidades da Federação. E, por isso, em cada uma das grandes cidades do interior a ministra precisa se dedicar a dar entrevistas às rádios, jornais e TVs regionais. Nessas cidades, um veículo local de comunicação chega a atingir de 1 milhão a 4 milhões de pessoas. Ribeirão Preto, por exemplo, conta com 6 jornais e 15 emissoras de rádio. As regiões de Guarulhos, Osasco, Campinas e do ABC paulista são consideradas importantes, mas já são visitadas periodicamente por Lula e estarão incluídas nas agendas de campanha.

O PT identifica que o grande desafio da campanha de Dilma Rousseff será conquistar o voto da dona de casa de classe média do interior, de perfil mais conservador. O partido tentará trabalhar a imagem de uma candidata mais próxima à realidade dessas eleitorais, sua luta contra o câncer e o fato de que em breve será avó. Outra dificuldade identificada pelo PT reside no eleitorado jovem que vai às urnas pela primeira vez. O PT considera o voto dessa parcela do eleitorado como volátil, o que atrapalha a definição de uma estratégia de aproximação.

O partido pretende conquistar o voto da nova classe média para tentar driblar a força do PSDB no Estado e o fato de que seu possível adversário ter a máquina administrativa em suas mãos. A campanha em São Paulo vai explorar as medidas tomadas pelo governo Lula durante a crise econômica mundial, como a redução do IPI sobre automóveis e eletrodomésticos e a manutenção dos empregos nas montadoras e indústrias do ABC paulista, e os dados que ilustram o aumento da renda e do número de postos de trabalho criados na gestão petista. Dilma vai mostrar em seu discurso exemplos que ajudaram a impulsionar a nova classe média, como a abertura do crédito consignado em folha de pagamento e a expansão da oferta de financiamento habitacional.