Título: Gestão operacional está entre os principais desafios do setor
Autor: Moreira , Talita
Fonte: Valor Econômico, 19/02/2010, Empresas, p. B3
Já houve um tempo em que a tarefa das operadoras de telefonia era mais simples. Tratava-se apenas de conectar dois interlocutores, fosse por meio de fios, fosse por radiofrequência. A edição do Mobile World Congress que terminou ontem deixou evidente que a realidade do setor nunca foi tão complexa e coloca à prova as habilidades dos principais executivos das companhias.
A agenda dos executivos passa pela gestão do tráfego das redes, que cresce exponencialmente com o uso de aplicações como vídeos e música, pela oferta dessas aplicações, por recriar nos terminais móveis o ambiente a que os consumidores estão acostumados na internet fixa, pelo debate de temas regulatórios, pela definição de padrões tecnológicos e pela própria redefinição do papel das operadoras diante da competição das todo-poderosas companhias da web.
É verdade que tudo isso vem num momento em que as teles estão internamente pacificadas depois das intensas disputas societárias que se seguiram à privatização do setor em diversos países. Esse tema, hoje, perdeu espaço. O que se espera é uma nova rodada de consolidação entre as companhias, a começar, possivelmente, pela união entre a Telefónica e a Telecom Italia.
Porém, agora, são questões operacionais e estratégicas os principais desafios da indústria. Como entregar o que os assinantes exigem (isto é , conteúdos multimídias cada vez mais pesados) sem estourar a capacidade física das redes e ainda ganhar dinheiro com isso?
"O crescimento do consumo de dados fenomenal gera custos maiores que o crescimento da receita", afirmou o diretor de tecnologias sem fio da Alcatel-Lucent, Paul Mankiewich. Numa apresentação na manhã de ontem, o executivo mostrou um gráfico no qual se vê que os custos por assinante de telefonia móvel estão se aproximando rapidamente da receita mensal gerada por cliente, que em média é de pouco menos de US$ 40.
Mas ninguém pode se dar ao luxo de restringir a oferta de novos conteúdos e serviços multimídia. Afinal, cada vez mais o valor das operadoras reside na capacidade de oferecê-los. "Os tempos são outros. Não somos um tubo. Não servimos apenas para enviar coisas de um lado para outro, como as empresas de eletricidade", afirmou, na quarta-feira, o controlador da operadora egípcia Orascom, Naguib Sawiris. "Estamos sendo burros. Oferecemos nossas redes para o Google e o Facebook usarem e ganhar dinheiro."
As declarações do empresário remetem a dois dos assuntos mais quentes do setor. Um deles o debate sobre a neutralidade das redes: as operadoras devem ou não cobrar pelo uso de sua infraestrutura por sites que são grandes geradores de tráfego, como os sites de buscas?
A discussão já existe há alguns anos nos Estados Unidos, onde até o presidente Barack Obama apresentou sua visão sobre o assunto. Para ele, as teles devem se manter neutras (ou seja, não cobrar). Na Europa, a discussão esquentou algumas semanas atrás, quando o presidente da Telefónica, Cesar Alierta, acusou os buscadores como o Google de tirar proveito de uma infraestrutura que não é deles.
O executivo-chefe do Google, Eric Schmidt, evitou enfrentamentos na palestra que fez durante o Mobile World Congress. Defendeu a neutralidade para trafegar nas redes, mas disse acreditar que sua empresa depende do êxito das operadoras.
Entretanto, não deixa de ser sintomático que Schmidt tenha sido a grande estrela do Mobile World Congress neste ano. A palestra conduzida por ele no fim da tarde de terça-feira lotou, foi transmitida on-line no site do evento e teve grande repercussão. Se o Google precisa das operadoras, as teles também não podem passar sem ele.
Não podem porque uma parcela crescente do tráfego e da arrecadação das teles é sinônimo de conteúdo multimídia. As chamadas telefônicas convencionais tornaram-se commodities. O serviço de voz ainda representa a maior parte da receita das teles, mas já não oferece perspectivas de expansão dos negócios.
É exatamente por isso que, durante o evento, falou-se tanto em aplicativos. As operadoras veem nos jogos on-line, nos vídeos, no acesso fácil às redes sociais, nos serviços de saúde e nos serviços financeiros por meio do telefone móvel uma oportunidade de ganhar dinheiro.
Até agora, as teles vinham apostando em parcerias com os fabricantes de aparelhos que têm suas lojas de aplicativos. No entanto, um grupo de 24 operadoras firmou, nesta semana, uma aliança para criar uma plataforma de desenvolvimento de software para seus assinantes.
Trata-se de uma iniciativa para conter o poder crescente de fabricantes de telefones inteligentes como a Apple, a Nokia e outros. Também é uma forma de estabelecer algum padrão para os aplicativos desenvolvidos. Há uma babel de sistemas operacionais e plataformas de aplicativos nos telefones móveis e na maioria das vezes o conteúdo criado para um aparelho não serve em outros.
O afã das teles pelo mercado de aplicativos pode parecer um tanto contraditório diante do discurso de que as redes caminham para a saturação com o aumento do tráfego. Mas elas não têm como fugir desse dilema. A migração já iniciada por algumas para a infraestrutura de quarta geração (4G) é uma tentativa. Se vai ser uma medida suficiente não se sabe. Por enquanto, há mais perguntas que respostas. (TM)