Título: Teles selam aliança para padronizar novos aplicativos
Autor: Moreira , Talita
Fonte: Valor Econômico, 19/02/2010, Empresas, p. B3
O bolo mal saiu do forno, mas operadoras de telefonia e fabricantes de aparelhos e infraestrutura para redes de telecomunicações já se armam para garantir o maior pedaço possível. O prato em questão é o nascente mercado de aplicativos para os celulares que deve movimentar ¿ 5 bilhões neste ano e quatro vezes mais em 2013, segundo dados da consultoria Gartner.
Nesta semana, 24 das maiores operadoras do mundo anunciaram uma parceria para estimular o desenvolvimento de software para os telefones móveis. Fazem parte do grupo nomes como Telefónica, Telecom Italia e América Móvil, que estão presentes no Brasil, Vodafone, Orange, AT&T e China Mobile.
A medida é uma nítida tentativa de reverter o domínio dos fabricantes de terminais, como Apple, RIM (BlackBerry) e Nokia. Essas empresas têm sido bem-sucedidas em sua estratégia de manter lojas on-line nas quais os usuários de seus celulares podem comprar ou baixar gratuitamente aplicações de músicas, vídeos e jogos, entre outros conteúdos.
A aliança entre as operadoras também tem como objetivo atacar o que hoje é um limitador na produção de software para os telefones móveis: a multiplicidade de sistemas operacionais e plataformas existentes no mercado. Em vez de precisar replicar o mesmo programa para diversos padrões diferentes, os desenvolvedores terão um ponto de entrada comum. A partir daí, serão feitas as adaptações necessárias aos aparelhos e serviços de cada operadora.
A estratégia tem o apoio da GSM Association (que reúne as principais empresas do setor) e também de fabricantes de celulares como LG, Samsung e Sony Ericsson. O modelo também atraiu o interesse de operadoras que, como a Vodafone, já têm suas próprias lojas de aplicativos.
"Somos abertos a todos os sistemas operacionais e lojas de aplicativos", disse o executivo-chefe da Vodafone, Vittorio Colao, durante uma apresentação no Mobile World Congress, evento do setor de telefonia móvel que foi realizado nesta semana em Barcelona.
Em outra frente, as fabricantes de equipamentos para redes de telecomunicações Ericsson e Alcatel-Lucent também anunciaram nesta semana o lançamento de suas respectivas lojas de software para celulares. A diferença é que o alvo da Ericsson, por exemplo, são as próprias operadoras e não assinantes de serviços de telefonia móvel.
O mercado de aplicativos para celulares começou a tomar forma alguns anos atrás, com a chegada do iPhone, da Apple. A companhia americana conseguiu estimular os produtores de software a desenvolver conteúdos para seu aparelho.
O resultado disso é que, hoje, a Apple Store conta com nada menos que 150 mil programas. Atrás dela vem as aplicações desenvolvidas para o Android, sistema operacional do Google. São 25 mil programas, segundo o Gartner. A diferença é que o Android está distribuído em aparelhos de diversos fabricantes, enquanto o sistema operacional da Apple é uma plataforma exclusiva do iPhone.
Segundo levantamento do Gartner, no ano passado foram feitos 1,8 bilhão de downloads de aplicativos para celular, número que deve saltar para 3,3 bilhões em 2010 e chegar a quase 16 bilhões em até três anos.
Não por acaso, este foi um dos temas de destaque da edição atual do Mobile World Congress. Pela primeira vez, o evento teve um pavilhão inteiro dedicado ao universo dos aplicativos batizados de App Planet.
Todo esse movimento não se faz sem uma dose de polêmica. Como se divide a receita proveniente da venda desses aplicativos? E até que ponto os clientes da operadora de telefonia são donos desse conteúdo?
Colao, executivo-chefe da Vodafone, defendeu que seja estabelecida uma espécie de portabilidade para os aplicativos baixados ou seja, que os clientes de uma operadora possam carregar com eles os programas comprados na loja de uma operadora ou de um fabricante quando mudarem de aparelho ou de prestadora de serviços.
"Os consumidores deveriam ter o poder de escolher e de levar seus dados consigo", afirmou o executivo. O modelo defendido por Colao seria parecido com a portabilidade numérica, que permite a um assinante manter o número de telefone quando muda de operadora.
Outro ponto ainda nebuloso, especialmente no que diz respeito à aliança das operadoras, é como garantir uma remuneração equânime aos desenvolvedores de conteúdo em países com cargas tributárias tão diferentes. A questão foi levantada pelo diretor de serviços de valor adicionado da América Móvil, Marco Quatorze, num debate sobre o mercado latino-americano. "Como equalizar os impostos pagos no Brasil, onde a carga pode superar os 40%, com os de um país como a Alemanha", indagou.
Apesar dessas indefinições, o presidente da operadora egípcia Orascom, Naguib Sawiris, celebrou a parceria entre as teles. "Vamos usar um modelo de compartilhamento de receita que é justo e claro", disse. "Poderemos identificar as aplicações que achamos relevantes e trabalhar a fundo nelas."