Título: Provisão não cumprida eleva o lucro do BNDES
Autor: Durão , Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 19/02/2010, Finanças, p. C3
A forte redução das despesas operacionais líquidas contribuiu para o robusto aumento do lucro líquido do BNDES, que saltou de R$ 5,3 bilhões em 2008 para R$ 6,7 bilhões em 2009, período ainda castigado pela crise financeira. O resultado colocou o banco no ranking dos cinco maiores lucros alcançados por bancos públicos e privados em 2009. A lista foi liderada pelo Itaú Unibanco, seguido pelo Bradesco e pelo BNDES, que ficou à frente do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
A reversão de uma provisão e o impacto positivo da correção, pela Selic, de dividendos pagos por empresas investidas pela BNDESPar - braço de participações do banco - levou a uma queda das despesas de R$ 3 bilhões em 2008 para R$ 833 milhões no ano passado. A transformação da provisão em receita decorreu de uma vitória do BNDES em instância superior, depois de perder na segunda instância uma disputa legal contra uma empresa (cujo nome a instituição não revela), que contribuiu com R$ 600 milhões para engordar o balanço da instituição de fomento.
Luciano Coutinho, presidente do BNDES, destacou que o excelente desempenho das contas do banco, num ano difícil, foi garantido pelo resultado bruto da intermediação financeira, que passou de R$ 3,9 bilhões em 2008 para R$ 5,8 bilhões em 2009, dado o expressivo crescimento da carteira de operação de crédito. "O que perdemos em spread (o BNDES opera com o menor spread da praça, taxa anual de 1,1%) ganhamos em volume de crédito", comemorou Coutinho. A taxa de inadimplência do banco subiu de 0,11% para 0,20%, considerada baixa por Coutinho.
O resultado com participações societárias da BNDESPar fechou em R$ 3,9 bilhões em 2009, ante R$ 6 bilhões em 2008 por conta da retração do mercado de capitais, principalmente no primeiro semestre. Na ocasião, o BNDES optou por não ir ao mercado desinvestindo papéis de seu portfólio e aproveitou para comprar na baixa da bolsa. O valor do portfólio de ações da BNDESPar em 31 de dezembro era de R$ 92,9 bilhões. "A BNDESPar tem uma visão de longo prazo em relação a seus investimentos e esta política de renda variável nos dá tranquilidade para trabalhar com um bom resultado em 2010", disse o presidente do banco.
Os números revelaram que a situação financeira do BNDES hoje é excelente, se medida pelos limites prudenciais definidos no Acordo de Basiléia. Os ativos totais da instituição somaram R$ 386,6 bilhões em 2009 ante R$ 277,2 bilhões em 2008. O patrimônio de referência do banco atingiu em dezembro valor de R$ 54 bilhões, correspondente a 17,5% dos ativos da instituição (R$ 41,4 bilhões em 2008).
Isto dá ao BNDES um grande conforto em relação a sua capacidade de emprestar para grandes grupos, dentro de um cenário de retomada do crescimento em 2010. No ano passado, o patrimônio líquido do banco atingiu R$ 27,6 bilhões em relação a R$ 25,2 bilhões em 2008 e a rentabilidade do PL, 25,47%, contra 23,85% no ano anterior.
Com o nível do patrimônio de referência acima das exigências dos limites prudenciais fixados no acordo de Basiléia (um mínimo de 11% dos ativos da instituição), o BNDES fica capacitado a aumentar sua carteira e ampliar de R$ 10,6 bilhões para R$ 13,5 bilhões o limite máximo de crédito para grandes empresas ou grupos. O limite de empréstimo para grandes grupos corresponde a 25% do patrimônio de referência. A única exceção, no caso, é a Petrobras, que conta com este limite para cada uma de suas empresas, como confirmou o diretor financeiro do banco, Maurício Borges Lemos.
O executivo disse que este resultado do BNDES em 2009 dá tranquilidade para trabalhar este ano. As captações junto ao Tesouro somaram R$ 105 bilhões em 2009 e o banco desembolsou R$ 137 bilhões para projetos de investimento no período, um recorde.