Título: Irã sugere que Brasil ajude em resolução de impasse nuclear
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 04/02/2010, Internacional, p. A10

Empenhado nas negociações para afastar o temor de uso bélico de material nuclear pelo Irã, o Brasil foi apontado por autoridades iranianas como um possível local onde o governo de Mahmoud Ahmadinejad entregaria o minério de seus estoques para ser encaminhado a outros país e enriquecido a 20%, para uso pacífico. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tem dito que prefere ver a Turquia nesse papel de intermediário, uma possível saída para a desconfiança dos iranianos em relação às propostas de acordo negociadas sobre o tema.

Ontem, o ministro trocou telefonemas com os ministros de Relações Exteriores do Irã, da Turquia e do Japão - outro país cogitado como intermediário para a troca de urânio iraniano por urânio enriquecido. Amorim, segundo um assessor que acompanha o tema, jamais conversou com o Irã, porém, sobre a possibilidade de enriquecimento do mineral em território brasileiro.

Amorim, em recente entrevista ao Valor, afirmou ter esperanças em um acordo para esvaziar os temores de que o Irã esteja desenvolvendo armas atômicas. No ano passado, o Irã havia chegado a aceitar um acordo patrocinado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), pelo qual os iranianos entregariam o urânio de seus estoques para ser enriquecido na Rússia ou na França, o suficiente para seu uso para fins pacíficos. O acordo esbarrou, porém, na exigência iraniana de garantias contra uma eventual retenção arbitrária do minério radioativo de seus estoques.

O maior problema nesse esquema é a necessidade, apontada pela AIEA, de que o Irã entregue o mineral em seu poder, para que haja controle sobre o teor e a quantidade a ser enriquecida, assegurando seu uso contra possíveis desvios. O Irã argumenta que não quer correr o risco de entregar suas reservas e ver-se subitamente impedido de recebê-las de volta, por isso passou a exigir alguma forma de intermediação que lhe proporcionasse garantias de posse do urânio, quando o solicitasse de volta.

As crescentes desconfianças de lado a lado levaram o Irã a interromper as negociações no âmbito da AIEA e a ameaçar o início do enriquecimento do urânio em território iraniano, o que levantou ameaças de retaliação, especialmente por parte dos Estados Unidos. Amorim, em visita ao Irã no fim do ano passado, chegou a sugerir ao presidente Mahmoud Ahmadinejad que desse um prazo, talvez de dois meses, para retomada das negociações antes de tomar qualquer iniciativa unilateral.

Dias depois, Ahmadinejad anunciou um "ultimato" às potências ocidentais, de dois meses. Um jornal iraniano noticiou o "ultimato" como sugestão de "um país neutro", o que foi considerado, no Itamaraty, referência ao Brasil (que não havia sugerido ultimato, mas um prazo de abertura de conversas). Na semana passada, Amorim voltou a encontrar-se com o ministro de Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, que também teve encontros com enviados do presidente francês, Nicolas Sarkozy, às margens do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. À saída, Mottaki afirmou que haviam explorado "novas ideias" sobre a troca de combustível e que esperava "bons resultados". Ele disse acreditar ser possível superar "ambiguidades" no planejado método de troca do urânio.

Em junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma viagem marcada para o Irã.