Título: O que é um mercado emergente?
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 23/02/2010, Opinião, p. A11
Foi-se o tempo em que havia um mundo (feliz) no qual os mercados emergentes eram facilmente diferenciados dos mercados desenvolvidos. Esse mundo, no entanto, está se esvanecendo em frente a nossos olhos (atônitos). Por um lado, estamos contemplando um teto cada vez mais alto para economias até pouco tempo atrás consideradas periféricas. Por outro, da Islândia à Grécia, estamos vendo como as taxas de risco-país, até anteontem exclusividade dos emergentes, vêm disseminando-se no âmago dos países europeus, depois de termos presenciado um colapso sem igual da maior economia do mundo, os Estados Unidos.
Os mercados emergentes estão deixando de ser, sem dúvida, países exóticos, remotos, de risco e volatilidade elevados. Obviamente, existem situações muito contrastantes. Em uma mesma região emergente, como o Leste Europeu, por exemplo, nos encontramos hoje em dia com economias como as da Polônia e Rússia, cuja diferença na variação do Produto Interno Bruto (PIB), em 2009, foi de quase 10 pontos percentuais: enquanto a Rússia sofreu contração próxima a 9%, a Polônia continuou crescendo, quase 1%. Na América Latina, da mesma forma, as situações vêm sendo bastante contrastantes, com o México sofrendo uma retração histórica de seu PIB, em 2009, enquanto o Brasil rondava um crescimento próximo a zero. Vários países deram-se ao luxo de poder ostentar taxas de crescimento quando quase todos os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentavam retração. Dessa forma, o Peru, assim como a Índia, Indonésia e China, exibiram índices de crescimento em 2009 e, no caso, dos países asiáticos, muito altos.
Acima de tudo, os países emergentes, em seu conjunto, estão mostrando de novo ser as grandes reservas de crescimento mundial, assim como o foram em toda a década de 2000. Nessa nova década que se inicia, os mercados emergentes crescem a taxas mais altas que os demais países da OCDE, principalmente aqueles que podem se apoiar em seus amplos mercados domésticos como é o caso do Brasil, Índia, China além de Egito, Vietnã e Indonésia.
Ainda mais chamativo é o fato de que os ciclos políticos em muitos desses países não alteraram suas economias. Dessa forma, em 2009, Índia e Indonésia presenciaram eleições que até impulsionaram os mercados financeiros. No início de 2010, as eleições no Chile também corroboraram o quanto o país avançou nas últimas décadas, com a transição e a alternância que estamos presenciando no país sendo um exemplo para muitas democracias desenvolvidas e os grupos que estão de saída organizando de maneira ordenada a entrega de poder aos que estão entrando.
O grande paradoxo é que enquanto estamos presenciando essas transformações nos países emergentes também somos testemunhas de acontecimentos insólitos nos integrantes da OCDE. Essas categorizações são, de fato, questionáveis: muitos países da OCDE são, na realidade, também economias emergentes. O México, seguido pela Coreia do Sul e, agora, no início de 2010, pelo Chile, ganharam sua admissão nesse seleto clube, do qual também formam parte outros emergentes, como Polônia e Turquia. O que chama a atenção, contudo, é como no próprio coração da Europa e dos países da OCDE estamos vendo surgir situações que apenas imaginávamos possíveis nos países emergentes.
Os déficits fiscais desenfreados já não são sinônimos de mercados emergentes (ao contrário, muitos mostraram comportamentos exemplares). Enquanto se acusava um país como a Argentina de maquiar suas estatísticas nacionais, descobriu-se que essa maquiagem em grande escala também se dava na Grécia, um país da OCDE, que além de estar na Europa ainda é membro da União Europeia. Em outubro de 2009, logo após vencer as eleições, o novo governo descobriu que o déficit fiscal, longe de estar em 5% do PIB, como se estimava, era na verdade de 12,7% do PIB. De repente, o nervosismo dominou os mercados financeiros e a diferença entre os juros dos bônus da Grécia e Alemanha disparou.
Como consequência, os mercados financeiros iniciaram especulações sobre as possibilidades de inadimplência na Grécia, algo que há apenas dois anos seria impensável. Essa antecipação, sem dúvida, é exagerada, embora o país tenha ficado quase metade dos últimos dois séculos em estado inadimplente, como Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff lembraram em seu livro mais recente, "This time is different" (Desta vez é diferente, em inglês). O que ficou claro é que estamos presenciando uma situação inédita, na qual os analistas começam a comparar as histórias da Argentina e Grécia. Algo dificilmente imaginável para os europeus há alguns anos é vislumbrar a entrada do Fundo Monetário Internacional (FMI) em algum país da região do euro. Até agora, a instituição era conhecida, especialmente, por suas intervenções e operações de resgate nos mercados emergentes. Em 2009, já havia caído o primeiro tabu sobre as operações do FMI, principalmente, na Europa (emergente), em países como Hungria e Romênia. Ainda resta outro tabu por cair: o resgate de um país europeu da região do euro.
Além da Grécia, no extremo norte da Europa, a Islândia também viveu um ano de altos riscos, com um colapso inédito de sua economia. No início deste ano, o presidente do país preferiu submeter a um referendo a decisão de pagar ou não a dívida privada de um banco privado quebrado. Com isso, de repente, o risco político também se aproxima da Europa. Esses exemplos e trajetórias apontam a uma mesma ideia: no mundo em que vivemos, as categorias tradicionais deixaram de ser pertinentes.
Em suma, a crise mundial desses últimos anos, originada no coração dos países da OCDE, está acelerando a transição em direção a um mundo onde o papel dos mercados emergentes é maior, como já o foi na primeira década deste século. Um mundo no qual também estão surgindo novos riscos (e oportunidades), para os quais a leitura dicotômica "países da OCDE - países emergentes" não é suficiente, um mundo definitivamente mais complexo que devemos enfrentar com mais humildade cognitiva.
Javier Santiso é diretor do Centro de Desenvolvimento da OCDE.