Título: Espanha será o verdadeiro teste do euro
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Fonte: Valor Econômico, 03/03/2010, Especial, p. A16

A Grécia iniciou a crise que assola a zona do euro. A Espanha pode determinar se a moeda compartilhada por 16 países morrerá ou sobreviverá.

Quarta maior economia da zona do euro, a Espanha enfrenta desemprego de 19%, uma bolha imobiliária que está murchando, dívidas substanciais e um déficit orçamentário gigantesco. Seu PIB encolheu 3,6% em 2009 e deve contrair novamente este ano, deixando o país na recessão mais longa e profunda em meio século.

No epicentro da crise estão milhões de espanhóis como Olga Espejo, de 41 anos. Ela perdeu o cargo administrativo num laboratório de Madri e achou um trabalho temporário substituindo alguém que estava em licença médica - até que o cargo foi eliminado. O marido e a irmã também foram demitidos - eles formam a estatística de 1 em cada 9 espanhóis economicamente ativos que perdeu o emprego nos últimos dois anos.

Cada um recebe um cheque de ¿ 1 mil euros por mês do seguro-desemprego, ou R$ 2.440, parte de uma rede generosa de previdência social que o governo afirma que não vai cortar. O seguro-desemprego de Espejo termina em julho, e o do marido, em maio.

"Que perspectiva a gente tem agora?", indaga Espejo.

Essa pergunta persegue a Espanha e a zona do euro inteira, no momento em que o continente enfrenta a maior crise econômica desde que a moeda comum foi lançada, em 1999. As preocupações com a capacidade da Grécia de financiar suas dívidas se espalharam para outros membros mais fragilizados da zona do euro, mas esses mesmos temores também já começam a morder os calcanhares da Espanha. O problema é que, devido principalmente a sua participação no euro, a Espanha não dispõe dos métodos comprovados para recuperar uma economia.

A Espanha não pode desvalorizar sua moeda, o que tornaria as exportações mais atraentes e seus balneários mais baratos, porque o valor do euro é influenciado pela economia industrial da Alemanha, maior e mais competitiva. Madri não pode cortar os juros ou imprimir dinheiro para impulsionar o crédito e o consumo, porque essas decisões são tomadas em Frankfurt pelo Banco Central Europeu.

A Espanha ainda pode tentar estimular o crescimento por meio de cortes de impostos e elevação nos gastos. Mas ela já aplicou uma injeção de estímulo gigantesca, que aumentou o déficit orçamentário para 11,4% no ano passado, mas precisará vender mais títulos para captar mais recursos. Os compradores de títulos soberanos espanhóis, temerosos com a possibilidade de uma moratória grega, já começaram a exigir de Madri juros mais altos.

"A Espanha é o verdadeiro teste do euro", diz Desmond Lachman, do centro de pesquisas American Enterprise Institute, de Washington. "Se a Espanha tiver problemas profundos, será difícil manter o euro em pé e, na minha visão, a Espanha enfrenta problemas profundos."

O governo rejeita os rumores de crise. "Os fundamentos de nossa economia estão sólidos", disse Elena Salgado, ministra da Economia, ao Wall Street Journal. Ela disse que os grandes bancos do país estão sadios, suas estatísticas econômicas são confiáveis e suas empresas são suficientemente dinâmicas para manter a fatia dos mercados de exportação. Salgado notou que a Espanha apresentava superávit orçamentário até a crise financeira e a dívida pública aumentou a partir de uma base muito baixa.

A Alemanha e a França, os pesos pesados da zona do euro, prometeram apoiar a Grécia se for necessário. Mas resgatar a Espanha - cuja economia de US$ 1,6 trilhão é quase o dobro das combalidas economias de Grécia, Portugal e Irlanda juntas - seria muito mais caro.

Uma injeção ao estilo "choque e pavor", voltada para renovar a confiança nas finanças espanholas se for necessário, custaria cerca de US$ 270 bilhões, segundo uma estimativa do BNP Paribas. O banco calcula que medidas semelhantes na Grécia, na Irlanda e em Portugal exigiriam US$ 68 bilhões, US$ 47 bilhões e US$ 41 bilhões, respectivamente.

Todavia, alguns observadores acreditam que a Espanha conseguirá sair da crise. Emilio Ontiveros, presidente da AFI, firma de análise financeira de Madri, diz que a recuperação já esta à vista no próximo semestre. "Tivemos um pouco de sorte. França e Alemanha, nossos maiores mercados, estão começando a crescer", disse ele. Isso deve ser suficiente para impedir que o desemprego suba muito além de 20%, um nível que a Espanha já enfrentou no fim dos anos 90.

A maioria dos economistas enxerga três opções para a Espanha.

A primeira é o governo não fazer nada, deixando a economia se arrastar por anos de desemprego alto e moratórias. A segunda é o governo assumir um papel mais ativo, cortando os gastos e adotando medidas impopulares para impulsionar a oferta na economia, como reformar as rígidas leis trabalhistas.

O presidente do banco central da Espanha defendeu fortemente esse caminho, dizendo num discurso que o governo precisa agir rapidamente para reduzir o déficit e reformar o mercado de trabalho. "Se as reformas surgirem tarde ou forem insuficientes, sem dúvida nosso futuro é preocupante", disse o presidente do Banco da Espanha, Miguel Ángel Fernández Ordoñez.

Lachman, do American Enterprise Institue, é um dos pessimistas que duvidam que o governo seguirá esse caminho. Ele acha que a incapacidade crônica do país de reiniciar o crescimento o levará a estudar uma terceira opção: abandonar a moeda comum e abrir um buraco na zona do euro. Isso permitiria uma desvalorização que aumentaria instantaneamente a competitividade da Espanha e permitiria que a economia voltasse a crescer.

Um ponto de vista mais convencional é que nenhum governo, incluindo o da Espanha, teria coragem de enfrentar o caos financeiro que uma decisão como essa causaria.

"Deixar o euro é extremamente caro", disse Jean Pisani-Ferry, do centro de pesquisas pró-europeu Bruegel, de Bruxelas. Assim que um governo indicasse uma possível desvalorização, haveria uma corrida aos bancos e a efetiva moratória de todos os contratos financeiros em euros no país. "No dia em que você começar a admitir que está pensando nisso, está numa situação financeira alarmante."

O governo já anunciou planos, a começar por aumentos nos impostos e cortes nos gastos este ano, para baixar o déficit para 3% do PIB até 2013, um plano que analistas financeiros descreveram como realista. O governo prevê que a dívida pública chegará no máximo a 74% do PIB em 2012, bem abaixo dos atuais 113% da Itália.

Mesmo assim, o primeiro-ministro, o socialista José Luis Zapatero, recebeu críticas de economistas por afirmar que vai lidar com a crise sem prejudicar os programas sociais do país.

"Não é um plano, é um comunicado", diz Lorenzo Bernaldo de Quirós, presidente da Freemarket International Consulting, de Madri. O resultado disso, diz ele, é que os espanhóis parecem ainda não ter compreendido que seu padrão de vida confortável, acolchoado pelo governo, está prestes a mudar. Os espanhóis ainda "pensam como cubanos e vivem como ianques", afirma.

Os problemas da Espanha espelham o boom que ocorreu depois que ela e outros onze países formaram a união monetária europeia, em 1999. O euro deveria cimentar um mercado único na Europa, reduzindo os custos de cruzar a fronteira para o turismo, o comércio e o investimento.

Em quase uma década de vacas gordas, os espanhóis ultrapassaram os italianos e se aproximaram dos franceses em termos de poder de compra. As empresas espanholas de energia, infraestrutura e serviços públicos e os bancos do país se expandiram pelo mundo.

Mas as sementes dos problemas atuais estavam sendo semeadas. Os salários cresceram rapidamente, tornando a economia cada vez menos competitiva. Os baixos juros do euro, estabelecidos para uma Alemanha com baixa inflação, começaram a gerar uma bolha imobiliária.

O valor dos imóveis mais que dobrou em termos reais no período de dez anos até 2008. No auge, o país, de 45 milhões de habitantes, construía mais casas que a Alemanha, a França e a Itália - que somam 200 milhões de habitantes - juntas.

O mercado imobiliário espanhol está demorando para se ajustar, o que deve atrasar a recuperação. O Banco da Espanha calcula que os preços caíram 15% desde o auge, cerca de metade do declínio registrado nos EUA. "No mercado americano, o dia do juízo final veio rapidamente. Na Espanha, foi adiado", disse Ontiveros, da AFI.

A quebra do mercado imobiliário mostra como a Espanha difere da Grécia na presente crise. Os economistas dizem que os problemas da Grécia advêm do esbanjamento governamental. Madri teve superávit durante anos - mas o setor privado espanhol embarcou numa onda de gastos alimentados por dívidas.

A dívida pública e privada da Espanha aumentou em média 14,5% ao ano de 2000 a 2008, segundo o McKinsey Global Institute. O endividamento total chegou ao auge no fim de 2008, a US$ 4,9 trilhões, ou 342% do PIB - porcentual maior do que nos EUA e na maioria das economias importantes, exceto Reino Unido e Japão. Cerca de 85% de tudo isso é do setor privado.

A McKinsey prevê que as famílias, as empresas endividadas e as incorporadoras vão diminuir as dívidas, numa "desalavancagem" ampla que provavelmente vai causar moratórias e prejudicar o sistema bancário. A maioria dos analistas diz que os problemas bancários da Espanha estão concentrados nas 45 "cajas", ou caixas, bancos regionais de poupança administrados por políticos locais que muitas vezes investiram pesado no crédito imobiliário.

Os empréstimos deficitários no balanço dos bancos e caixas regionais da Espanha são calculados em 5% do total, ante 3,2% há um ano. Santiago López Díaz, analista bancário do Credit Suisse em Londres, calcula que esse número pode estar subestimando o total em 30% a 40%.

Alguns estimativas do setor privado calculam que cerca de metade das cerca de 1,3 milhão de casas encalhadas estão agora no balanço das cajas e dos bancos, que têm demorado para vendê-las porque não querem realizar os prejuízos. As instituições financeiras "se tornaram as maiores empresas imobiliárias" da Espanha, disse Fernando Encinar, cofundador do Idealista.com, o maior site imobiliário da Espanha.

O governo tentou forçar as cajas a se consolidar para criar bancos mais sadios e criou um fundo para incentivá-las a reestruturar e aumentar o capital. Os analistas preveem que as cajas devem divulgar grandes prejuízos este ano que provavelmente vão forçar o governo a captar mais dinheiro para aumentar o fundo.

O desemprego maciço pode adiar ainda mais a lenta saída da Espanha do endividamento. Mesmo durante o boom, o desemprego nunca ficou abaixo de 8%. Agora o índice está perto de 20% no geral e em 45% para os jovens - estatísticas que, para os economistas, revelam um mercado de trabalho altamente problemático.

Os salários são estabelecidos por meio de um sistema complicado de negociação com os sindicatos, que impõe reajustes mesmo para empresas que não podem pagá-los. Como os salários são inflexíveis, as empresas espanholas só conseguem baixar os custos trabalhistas demitindo trabalhadores. Mas alguns trabalhadores, efetivados pelos chamados contratos sem fim definidos, estão profundamente entrincheirados, principalmente porque as empresas são obrigadas a pagar 45 dias de indenização para cada ano trabalhado.

Assim, quando a economia entra em crise, os detentores de contratos temporários têm de arcar com a maior parte do impacto. Quando as perspectivas melhoram, as empresas demoram a assinar novos contratos sem fim definido.

Isso não é uma situação favorável para Eduardo García, 55 anos, que esperava na fila do lado de fora de um centro de auxílio a desempregados no bairro Santa Eugenia em Madri. Desempregado pela primeira vez, García trabalhou 25 anos numa distribuidora de livros e revistas que fechou em novembro. Sua mulher e sua filha de 20 anos também estão desempregadas. García diz que não tem recebido propostas de emprego. "Vai ser difícil na minha idade."

O governo prometeu reformar o mercado de trabalho. Uma das propostas é reduzir as indenizações para novos contratados em 12 dias, para 33.

Fernando Eguidazu, diretor-geral da associação Círculo de Empresários, disse que o governo tem evitado bater de frente com os sindicatos. Manifestações contra uma proposta de elevar a idade mínima para se aposentar de 65 para 67 anos ocorreram em várias cidades espanholas terça e quarta-feira.

Os sindicatos podem até resistir às novas propostas para as leis trabalhistas, disse ele, mas é uma medida necessária: "Se [o governo] continuar tentando agradar a todos, estamos desperdiçando tempo e as pessoas e os mercados vão perder a confiança."

Esse sentimento já é aparente no mercado de seguros contra uma moratória espanhola. O preço do seguro para ¿ 10 milhões em títulos espanhóis durante cinco anos - apenas ¿ 2.350 há três anos - subiu este mês para ¿ 171,7, antes de cair para ¿ 125, informou a firma de dados financeiros Markit Group.

Isso se traduz em custos de crédito mais altos para a Espanha, que no momento tem que pagar 0,8 ponto porcentual a mais que a Alemanha para tomar um empréstimo de dez anos.

Para financiar seus governos, bancos e empresas, a Espanha passará anos à mercê de investidores de renda fixa ressabiados. O governo nacional afirma que terá de captar ¿ 76,8 bilhões este ano e quitar ¿ 35 bilhões em títulos a vencer.

Em meio a tudo isso, Bernaldo de Quirós prevê que os temores dos investidores vão oscilar em relação ao que chama de "risco real de moratória", enquanto esperam por alguma ação definitiva do governo. "Quanto mais tempo é perdido", disse ele sobre o governo, "mais devastador será o ajuste da economia."