Título: Tremor no Chile pode afetar clientes no país
Autor: Fontes , Stella
Fonte: Valor Econômico, 03/03/2010, Empresas, p. B11
A indústria brasileira de fios, cabos e laminados produzidos a partir de cobre pode enfrentar um desabastecimento pontual em razão dos estragos provocados pelo terremoto no Chile, segundo maior produtor mundial do minério e principal fornecedor do Brasil. De acordo com a Associação Brasileira do Cobre (ABC) e com o Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos (Sindicel), já há notícias de atraso na entrega de catodos de cobre, material intermediário para a produção de fios e cabos, que são importados do país latino. Por outro lado, o setor de celulose brasileiro pode ser beneficiado. Na indústria de celulose, a interrupção das operações das chilenas Arauco e CMPC poderá impactar os preços da matéria-prima, que já teve valorização expressiva nos últimos meses.
Segundo o presidente do Sindicel, Sérgio Aredes, embora as operações nas minas chilenas, localizadas ao norte do país, não tenham sido afetadas pelo terremoto, que causou estragos principalmente na região centro-sul do Chile, dificuldades no escoamento do produto deverão levar ao não cumprimento dos prazos previstos em contrato. "Os portos não foram afetados, mas há estradas bloqueadas e isso impede o fluxo normal", afirma Aredes. "Não deve haver impacto nos preços, mas podemos ter problemas de desabastecimento em um determinado momento", acrescenta.
Em 2008, segundo dados do Sindicel, o consumo aparente brasileiro de cobre refinado totalizou 381,7 mil toneladas e as importações de catodo alcançaram 251 mil toneladas. No ano passado, diante da crise econômica, o volume importado recuou para cerca de 180 mil toneladas de catodo e o Chile forneceu cerca de 70% desse volume. Conforme Aredes, embora o Peru também apareça como fornecedor relevante de cobre para a indústria brasileira, será muito difícil substituir contratos no curtíssimo prazo. "A saída será aceitar esse momento", avalia.
Única produtora integrada de cobre refinado no país, a Paranapanema informou que não deverá enfrentar problemas no recebimento de cobre do Chile, hoje maior fornecedor do grupo. Anualmente, cerca de 400 mil toneladas do minério, que será transformado em catodos e vergalhões, são importados do Chile pela empresa. Porém, de acordo com Marco Martins, diretor comercial, a entrega do cobre chileno, por meio de navios, está garantida e o impacto do terremoto para a companhia deve ser bastante reduzido.
Na indústria de celulose, a paralisação das operações em fábricas da CMPC e da Arauco, em decorrência de falta de energia ou pelo fato de as unidades fabris, especialmente no caso da segunda companhia, estarem localizadas na área mais atingida pelo terremoto, poderá repercutir nos preços da matéria-prima, uma vez que o Chile é importante fornecedor no mercado internacional e reduzirá sua oferta por tempo indeterminado. Em comunicado, a Arauco informou que ainda não é possível determinar em que data as atividades serão retomadas e que, em alguns casos, os danos causados pelo terremoto são relevantes. Em 2008, o Chile ocupava a 10ª posição no ranking dos maiores produtores mundiais de celulose, com produção de 4,98 milhões de toneladas do insumo - no mesmo ano, o Brasil ocupava a quarta posição no ranking, com 12,7 milhões de toneladas produzidas.