Título: Locke indica que política sobre etanol pode mudar
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 10/03/2010, Brasil, p. A3

Os Estados Unidos queremfazer negócios, não a guerra. Essa foi a principal mensagem trazidaontem pelo secretário de Comércio dos EUA, Gary Locke, em conversas comos ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, MiguelJorge, e da Casa Civil, Dilma Roussef, além do secretário-geral doMinistério Minas e Energia, Márcio Zimmermann. Locke, em um intervaloentre os encontros, falou ao Valor, revelou prioridades dos EUAno comércio com o Brasil e sugeriu que pode estar próximo o atendimentoa uma antiga reivindicação, o fim da taxa imposta às importações deetanol brasileiro naquele país . "Vamos ver o que faz o Congresso",disse o representante do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Em maio, uma delegação de autoridades brasileiras vai aos EUA analisar as operações das empresas de encomendas expressas, como FedEx e UPS,em mais um passo nas negociações para facilitar o uso desses serviçosno comércio entre os dois países, informou Locke, com ar satisfeito.Hoje, importações pelos chamados "courier" são limitadas a US$ 3 mil. Osecretário (equivalente a ministro, nos EUA) informou também que, em"poucos dias", virá um delegação de autoridades dos Estados Unidos paratentar um acordo que evite as sanções anunciadas nesta semana peloBrasil contra empresas americanas, em retaliação aos subsídios ilegaisconcedidos aos produtores de algodão dos EUA.

"Háum forte compromisso dos dois países em evitar uma guerra comercial.Numa guerra comercial ninguém ganha, todos perdem", disse Locke. Elediscutiu com autoridades brasileiras o interesse do governo e firmasamericanos em participar de obras e investimentos de infraestruturadestinados à Copa do Mundo de futebol de 2014 e à Olimpíada de 2016. OsEUA defendem um acordo de "open skies (céus abertos)", abertura paraoperação de companhias de aviação, e têm propostas para participar daampliação da infraestrutura aeroportuária, informou Locke.

Eleclassifica de "especulação" a ameaça de retaliações brasileiras contradireitos de propriedade intelectual de firmas americanas, como foiautorizado pela Organização Mundial de Comércio (OMC). Para evitar esserisco, os EUA pretendem alcançar rapidamente um acordo, argumenta, enega que uma eventual retaliação por parte do Brasil possa desencadearuma guerra comercial, com represálias de lado a lado. "O Brasil estáautorizado a fazer isso (as retaliações) de acordo com a decisão daOrganização Mundial do Comércio", reconhece.

"Éimportante não haver nenhuma retaliação posterior como resposta do ladoamericano, que crie outro ato de retaliação do lado brasileiro, queentão crie outra resposta do lado americano, que resulte em respostabrasileira, indo de um lado ao outro, numa guerra comercial que ninguémganharia", diz. "Precisamos tentar resolver o mais rapidamente isso,evitar qualquer tipo de guerra comercial", comentou o secretário, numademonstração da boa vontade dos EUA. Ele ressalva que não é oencarregado das negociações, que são conduzidas pelo representantecomercial dos Estados Unidos (USTR), Ron Kirk.

"Arelação global entre Brasil e EUA é tão forte e muito complexa que numarelação dessas sempre há desentendimentos", minimiza o secretário."Essa questão específica (do algodão) não pode obscurecer o incrívelprogresso feito em termos de interdependência entre os Estados Unidos eo Brasil."

Cautelosoao falar de etanol, assunto de decisão do Congresso americano, Lockeadianta, porém, que há um deslocamento progressivo dos Estados Unidosem direção a alternativas avançadas de energia e biocombustível e paralonge do uso do etanol de milho, que "não preenche os critérios paraser definido como biocombustível avançado". O etanol de cana sim,preenche. Em dezembro, acaba o prazo de vigência do subsídio concedidoao álcool dos produtores americanos e da sobretaxa sobre o álcoolbrasileiro. "Vamos ver o que faz o Congresso", insinua o secretário. Noano passado, foi extinta por decurso de prazo uma taxa de apoio aobiodiesel local, pouco eficiente.

OsEstados Unidos têm interesse em vender ao Brasil produtosprincipalmente de pequenas e médias empresas geradoras de emprego, emsetores como cosméticos, farmacêuticos, energia alternativa,equipamentos geradores e até turbinas eólicas, enumera Locke, quediscutiu oportunidades de fornecimento de equipamentos geradores e deeficiência energética no Ministério de Minas e Energia. "Tambémbuscamos oportunidades para pequenas e médias empresa do Brasil, maspara essas empresas a logística e o envio de mercadorias é umcomponente-chave", argumenta ele, para voltar à defesa de facilidadespara empresas de encomendas expressas. "Pequenas e médias empresas nãoocupam um contêiner de produtos, é mais fácil e conveniente o envio depacotes pequenos, por empresas como UPS e FedEx", insiste.

"Tambémvejo oportunidades para companhias americanas para fazer sociedades combrasileiras", argumenta, ao falar das perspectivas com a Copa do Mundode futebol e a Olimpíada no Brasil. "Veja o turismo, a construção deestádios, as várias instalações para os Jogos Olímpicos, a melhoria detransporte", comenta. Ao ser provocado a dizer qual o principalresultado da visita ao Brasil, na qual acompanhou no almoço osdirigentes do Forum de Altos Executivos Brasil-Estados Unidos, Locke dáuma resposta política. "O principal é a reafirmação da força de nossasrelações econômicas e políticas, valorizamos muito isso, nossa parceriacom o Brasil", afirma. "Vemos oportunidades mútuas de investimentos, delevantar o padrão de vida de ambos os povos."

Oministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, MiguelJorge, informou à saída do encontro e do almoço com Locke que nãochegaram a discutir propostas específicas no caso do algodão. Segundouma autoridade brasileira que participou do encontro com o secretário,os representantes do governo brasileiro insistiram com a delegaçãoamericana que o prazo para as retaliações é curto, 30 dias, e háexpectativa de uma oferta dos EUA a tempo de evitar as sanções.

"Amensagem sobre algodão é que queremos resolver o caso, e o maisrapidamente possível, de maneira satisfatória para ambos", garanteLocke. "Enviados dos Estados Unidos se encontrarão com sua contraparteno Brasil em poucos dias", informou.