Título: Pós-crise, executivos temem excesso de regulamentação
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2010, Especial, p. A12
A interferência dos governos foi importante para estabilizar o setor privado no auge da crise financeira, mas tornou-se grande preocupação para os empresários, constatou a pesquisa anual feita pela PriceWaterhouseCoopers com cerca de 1.200 executivos de cinquenta países, tradicionalmente divulgada na véspera do Fórum Econômico Mundial, na Suíça. Os executivos estão com "otimismo cauteloso" e planejam contratações nos próximos doze meses, mas uma grande parcela desses empresários elege o perigo de "excesso de regulamentação governamental" como a maior preocupação, agora que a crise parece caminhar para o fim.
"Temos de assegurar que os governos não colocarão barreiras que reduzam a velocidade da recuperação econômica mundial", comentou o presidente da PriceWaterhouseCoopers, Dennis Nally, ao Valor. "Não podemos voltar ao protecionismo, nem a regulamentações populistas", comentou, usando o adjetivo com que agentes do mercado têm marcado as recentes medidas de controle do sistema financeiro decididas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
"A maneira como os bancos centrais trabalharam colaborativamente é o exemplo do tipo de comportamento que deve servir de modelo", afirmou Nally, condenando as normas decididas unilateralmente por países como os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, de taxação dos bônus de altos executivos e restrições sobre os ganhos dos bancos e sobre suas operações.
"São coisas que parecem muito boas ditas ao microfone, atendem a expectativas populares, que buscam culpados", define Nally, quando solicitado a explicar o que são "medidas populistas". O sistema financeiro é complicado e complexo, e, embora o furor popular faça parte do jogo, os governos devem evitar respostas apressadas e fazer consultas mais profundas as especialistas, e entre si, analisa o presidente da empresa de consultoria.
As declarações de Nally dão o tom do que já é uma das marcas desse Fórum Econômico, em Davos. Em lugar de iniciativas nacionais, pede-se mais discussões globais e coordenação em instituições como o G-20, que reúne as economias mais influentes. É no G-20 que os executivos apostam para conter o que consideram excessos regulatórios dos governos. "Respostas emocionais podem parecer satisfatórias no curto prazo, mas não vão resolver", diz.
No que o próprio consultor classifica de um "paradoxo", metade dos empresários pesquisados aprova a ação dos governos na crise, mas um número superior a dois terços se mostra preocupado com o envolvimento de longo prazo do governo nos negócios. Em média, mais de 70% dos executivos temem interferências políticas, distorções do mercado e conflitos de interesse devido à presença estatal.
A sondagem realizada pela PriceWaterhouseCoopers mostra, porém, como o governo vem ganhando espaço: entre os pesquisados, 14% eram estatais, quatro pontos percentuais acima da última pesquisa; e um terço dos entrevistados apontou sociedade do governo na principal empresa de seu setor.
Apesar da boa disposição nas empresas, outro grande temor dos executivos é o risco de prolongamento da recessão. "A avaliação muda conforme os países, mas, em geral, a previsão é de lenta recuperação da economia", comenta o presidente da PriceWaterhouseCoopers. Como o ponto de partida é muito baixo, porém, maior parte acredita em melhora para os negócios.
Mais uma vez, a sondagem mostra os países emergentes como os mais otimistas. Na média, 81% dos executivos acreditam na melhoria de perspectivas nos próximos doze meses. Mas, na América Latina e na China, esse percentual sobe para 91%; e para 97% na Índia. Nos EUA, embora ainda expressiva, parcela de otimistas baixa para 80%.
"É interessante: as maiores, empresas com mais de US$ 10 bilhões em receita, são as mais confiantes", observa o consultor. O otimismo se reflete no mercado de trabalho, tema em que Brasil se destaca por ter 60% dos executivos pesquisados decididos a aumentar o nível de emprego de suas empresas. Na Ásia, na região do Pacífico e no Canadá, metade dos pesquisados fala em mais contratações.
Sinal de que ainda há duvidas sérias no horizonte, 25% do total das empresas pesquisadas fala em cortes de pessoal (no total, 39% vão aumentar seus quadros). Os empresários, em grande parte, lamentam não ter uma política adequada de recursos humanos, o que levou a demissões de talentos que, agora, exigem recontratações ou treinamento custoso de mão de obra.
A sondagem mostra que, para a grande maioria das empresas, o crescimento será baseado em seus próprios recursos e em procedimentos básicos como corte de custos e investimento nas atividades tradicionais. Embora ainda haja interesses em fusões e aquisições, a maior parte das empresas buscará um "crescimento orgânico", segundo Dennis Nally, dando prioridade à gerência mais eficiente de seus recursos próprios. "O foco vai ser no crescimento interno, usando fluxo de capital da própria empresa", prevê. "Durante a crise, muitas firmas com bons balanços e bom histórico se surpreenderam sem conseguir alavancar recursos", lembra.