Título: Tarso Genro volta ao Rio Grande do Sul disposto a "dividir" Dilma com Fogaça
Autor: Bueno , Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 11/02/2010, Política, p. A7
O agora ex-ministro da Justiça e pré-candidato do PT ao governo gaúcho, Tarso Genro, chegou ontem a Porto Alegre com o espírito preparado para dividir a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do partido à Presidência, com o prefeito José Fogaça, do PMDB, seu possível adversário em outubro. "Quanto mais palanques nossa candidata tiver, melhor para o PT e para o Brasil", afirmou.
Esta semana o prefeito admitiu que poderá apoiar Dilma se esta for a decisão da convenção nacional do partido. O apoio à petista é uma condição imposta também pelo PDT gaúcho, aliado do governo Lula e ocupante da vice-prefeitura de Porto Alegre, para compor a chapa com Fogaça. Para Genro, a situação não o impedirá de fazer "profundas, mas respeitosas" críticas à prefeitura e à governadora Yeda Crusius (PSDB), provável candidata à reeleição, que tem os pemedebistas em sua base de apoio. Ele disse até sentir-se "homenageado" se o candidato que divide com ele a liderança nas pesquisas apoiar a petista. "Isso significa que ele tem um reconhecimento prévio da importância do nosso projeto para o Estado e para o país", afirmou.
Na opinião de Luiz Fernando Mainardi, um dos coordenadores da campanha de Genro, é "falsa" a ideia de que o apoio de Fogaça à ministra pode enfraquecer a candidatura do petista. "Quem terá que dar maiores explicações aos eleitores é o PMDB, porque a maioria do partido no Estado não apóia Lula", disse.
Para o deputado Raul Pont, que à noite assumiu a presidência do PT no Estado no lugar do ex-governador Olívio Dutra, a inclinação o prefeito é boa para Dilma porque restringe as opções do provável adversário dela, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), no Estado. Nesse quadro, ele teria disponível apenas o palanque de Yeda, que vem apresentando baixos índices de popularidade nas pesquisas.
Mas se a divisão da companhia de Dilma na campanha com o PMDB parece resolvida para o PT gaúcho, o mesmo não vale para a briga pelas alianças. Genro não desistiu de atrair o PDT e o PTB (que até agora fala em candidatura própria) e ontem sinalizou que um eventual acordo poderia incluir, além da participação na chapa, o apoio do PT para a prefeitura de Porto Alegre em 2012.
"Não temos a visão de monopólio das cabeças de chapa. Essa é a linha do PT hoje, do Olívio Dutra e do Raul Pont", comentou. "Devemos buscar, nas alianças, a melhor possibilidade eleitoral daquele momento e que seja do campo (político do PT)".
Em Brasília, ao transmitir o cargo para Luiz Paulo Barreto, Genro ouviu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a Pasta perdeu importância política. "Tivemos momentos em que o ministério era eminentemente político. Em 1978, fui convidado pelo Petrônio Portella [então ministro da Justiça] para discutir a abertura política que o Geisel queria. Hoje, esse peso político diminuiu", declarou Lula, acrescentando em seguida, numa menção velada ao governo anterior, "que tivemos períodos em que passaram de oito a nove ministros pela Pasta".
Lula optou por um servidor de carreira do ministério em detrimento do deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), indicado por Tarso Genro e por petistas ligados à Justiça, como os ex-deputados Luiz Eduardo Greenhalgh e Sigmaringa Seixas. Cardozo é da mesma tendência de Genro no PT - "Mensagem ao Partido".
Os que defendiam Cardozo, alegavam que, num ano eleitoral, seu trânsito no Poder Judiciário e na oposição seria útil ao governo. Há duas semanas, um assessor de Lula informou que a nomeação estava decidida. Na reta final, no entanto, Lula preferiu um técnico.
Segundo um ministro, o presidente tomou essa decisão para não fazer uma exceção ao critério geral que utilizará nas mudanças decorrentes das disputas eleitorais deste ano - o de nomear os secretários-executivos e, assim, assegurar a continuidade da gestão. "Se na primeira substituição que eu fizer no ministério não trocar por um secretário-executivo, não poderei agir assim em nenhuma outra situação", teria dito o presidente, segundo um auxiliar. Mesmo elogiando Barreto, o ex-ministro da Justiça trabalhou intensamente pela escolha de Cardozo.
Um dos ministros com maior militância partidária - deixou a Pasta da Educação para presidir o PT no auge do mensalão -, Genro foi chamado ontem por Lula de "ousado, criativo e impetuoso". Reservadamente, no entanto, Lula tinha diferenças com o ex-ministro. Nunca engoliu seu interesse manifesto em disputar a indicação do PT para a candidatura à Presidência, em 1998, e o fato de ter liderado, em 2005, a proposição de refundação do PT, no ápice da crise do mensalão. (Colaborou Raymundo Costa, de Brasília)