Título: Governo se irrita com protesto do Senado
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Fonte: Valor Econômico, 18/03/2010, Especial, p. A16
O governo brasileiro reagiu com surpresa à decisão do presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Eduardo Azeredo (PSDB-MG), a pedido de senadores de oposição, de bloquear a aprovação de novos embaixadores até que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, vá ao Congresso "explicar" a política externa. "A oposição tem de crescer", comentou o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, ao afirmar não ver razão do boicote aos embaixadores. Amorim, afirmou que já havia combinado com o Congresso uma visita em abril, na primeira oportunidade aberta pela agenda ministerial.
"Nunca fizemos isso quando éramos oposição, nem quando o governo Fernando Henrique Cardoso condecorou ministros do ditador Alberto Fujimori, apoiando dessa forma a ditadura no Peru", disse o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, que fez questão de ressalvar ser direito do Congresso a ação, em protesto contra a política externa do Executivo. "Estão no seu papel, o Legislativo é independente."
Amorim também comentou, em tom bem humorado, que não criticaria uma decisão "legítima" do Legislativo. Disse, porém, não ver razão para boicote aos embaixadores, porque nunca se negou a atender a convites do Congresso. "Quando houve o caso de Honduras, me convidaram de manhã e fui à tarde", lembrou. Poucas decisões de importância serão prejudicadas por uma paralisação de uma semana, avaliou.
Os integrantes do governo ficaram irritados com a repercussão, no Brasil, das reações da extrema-direita israelense à recusa de presidente Luiz Inácio Lula da Silva de homenagear o fundador do sionismo moderno, Theodor Herzl. Proposta, segundo os diplomatas, quando já se havia definido a agenda da visita oficial, a ida ao túmulo de Herzl não constou das visitas feitas a Israel pelos chanceleres da Itália, Sílvio Berlusconi, e da França, Nicolas Sarkozy, segundo lembraram autoridades brasileiras, para quem a discussão em torno do episódio teria sido uma indelicadeza diplomática de Israel.
Em ato considerado uma "total descortesia" por Marco Aurélio Garcia, o ministro de Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, de um partido radical da coalizão governamental, avesso a concessões a árabes e palestinos, boicotou a visita de Lula ao Parlamento israelense e uma reunião entre o presidente brasileiro e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O gabinete do primeiro-ministro não se manifestou, porém, sobre o incidente, que serviu à oposição no Brasil para anunciar o protesto contra a política externa brasileira.
Ao contrário do que ocorreu com o túmulo de Herzl - visto no mundo árabe e palestino como inspirador do movimento que levou ao deslocamento em massa de palestinos de terras que antes ocupavam para a instalação de Israel -, Lula prestou homenagem ao ex-líder da Organização para Libertação da Palestina, Yasser Arafat, que comandou atos de terrorismo e guerrilha até o início da década de 90 e morreu depois de ter seu quartel-general bombardeado e cercado, durante três anos, pelas forças militares israelenses. Arafat conheceu Lula pessoalmente e recebeu apoio do PT nos conflitos contra a ocupação israelense do território reivindicado pelos palestinos. (SL)