Título: Presidente do Banco Central tende à desincompatibilização
Autor: Fernandes , Maria Cristina
Fonte: Valor Econômico, 26/03/2010, Política, p. A7

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deve decidir neste fim de semana seu futuro no governo. Na próxima semana um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva baterá o martelo sobre seus rumos. A desincompatibilização, que teria que acontecer até o dia 31, é a que lhe abre mais possibilidades. Há espaço em Goiás para uma candidatura ao governo ou ao Senado, mas a aposta é pela permanência no plano federal.

A primeira opção é pela Vice na chapa da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff. A reforçar essa possibilidade está a percepção de que o mercado, como sempre acontece em campanhas eleitorais, pode requerer a presença de um vice garantidor de que não há espaço para aventuras na política monetária.

Não há a expectativa de que a ministra da Casa Civil, em que pese o programa aprovado por seu partido, venha a levar a público as divergências que pautaram as disputas internas opondo os chamados desenvolvimentistas e os responsáveis pela política monetária.

A campanha, no entanto, mal começou, e, na oposição, a possibilidade de que o governador José Serra (PSDB) pode tentar se viabilizar como um candidato à esquerda do governo Luiz Inácio Lula da Silva não está descartada. As ideias veiculadas por colaboradores de sua campanha sobre o grau de intervenção do Banco Central no mercado de câmbio são um exemplo do que está por vir.

Como vice, o papel de fiador da política monetária teria mais peso na campanha do que num eventual governo. Vitoriosa a chapa, no entanto, Meirelles teria o precedente do atual ocupante do cargo, José Alencar, para não apenas influir no debate sobre os rumos do governo, como acumular ministério.

Sendo ou não vice de Dilma, Meirelles é uma possibilidade em aberto para vir a ocupar uma Pasta na área econômica num eventual governo Dilma Rousseff. A permanência no Banco Central não está descartada embora o cargo hoje não ofereça novos desafios a seu ocupante. O Planejamento seria uma possibilidade, desde que não estivesse restrito a questões orçamentárias. A opção mais atraente seria a Fazenda ainda que os embates internos travados com os desenvolvimentistas neste governo deixem claro os interesses em jogo na disputa pelo cargo.

O país cresceu em meio a esse embate. Ambos os lados se veem como vitoriosos. Os desenvolvimentistas clamam méritos por sua pressão e as autoridades do Banco Central pela liberalização lenta mas segura da política monetária.

É deste debate que Meirelles se afastaria se rumasse para a política de Goiás. Ele teria o apoio do atual governador, Alcides Rodrigues (PP), para enfrentar o candidato do PSDB, Marconi Perillo, o que até o atual prefeito de Goiânia, Íris Resende (PMDB), reconheceria como condição vantajosa frente à sua própria postulação ao cargo. O Senado é outra possibilidade, embora a crise por que passa o Legislativo suscite dúvidas sobre o grau de influência dos debates travados na Casa para os rumos do país. Ele costuma perguntar a quem lhe sugere o Senado qual parlamentar tem mais espaço no debate público de hoje do que, por exemplo, seu antecessor no cargo, Armínio Fraga.

No Planalto, detectou-se um aumento na pressão vinda de políticos goianos para que o presidente do BC concorra a algum cargo pelo Estado. Um ministro diz que há cerca de um mês havia a convicção no governo de que Meirelles não cederia. Mas, nos últimos dias, acusa o que chama de "pressão avassaladora" vinda do Estado. Um auxiliar do presidente reconhece que a campanha pelo governo de Goias expõe o patrimônio pessoal de Meirelles ao risco de dilapidação.

A grande resistência a que seu nome emplaque na Vice continua a vir de seu partido. O presidente da Câmara, Michel Temer, continua a ser a opção número um do partido, mas o grupo no PMDB mais favorável à candidatura Meirelles ainda aposta que, exposto às intempéries da campanha, Temer possa acabar sendo substituído por Meirelles até meados do ano, quando as chapas serão oficializadas.

Entre os pemedebistas que verbalizam a resistência a Meirelles está o deputado Eduardo Cunha (RJ). "O PMDB não se sentiria representado por ele na chapa presidencial", diz. Entre os interlocutores do presidente do Banco Central no partido estão o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o governador Sérgio Cabral (RJ) e parte da bancada gaúcha.

Pelo estatuto do partido, não há qualquer proibição a que Meirelles apresente seu nome na convenção e proponha uma disputa interna pela vaga de vice na chapa presidencial de Dilma Rousseff. Mas além da percepção de que Temer hoje é majoritário no partido e venceria facilmente a disputa interna, o presidente do Banco Central não está disposto a partir para a queda de braço. Prefere ser escolhido para o cargo.

Deputado federal mais votado na eleição de 2002 por Goiás, Meirelles desfiliou-se do PSDB para assumir a presidência do BC em janeiro de 2003. Acabou transformando-se no dirigente do Banco com mandato mais longo - praticamente os oito anos da gestão de Lula. No ano passado, filiou-se ao PMDB e foi escolhido como um dos responsáveis pela elaboração do plano de governo do partido que será apresentado ao PT.

O presidente do Banco Central não descarta, por completo, o retorno à iniciativa privada. Enxerga grandes possibilidades no mercado de captação de investimentos para o Brasil, mas os oito anos no governo lhe aprofundaram o gosto pela política. Há um mês foi alvo de um jantar de homenagem vindo de um inesperado público de atores e dramaturgos em São Paulo. O fato de ter assegurada uma vaga num eventual governo Dilma pode lhe trazer a tranquilidade necessária a que decida pela desincompatibilização. Até lá poderá trabalhar na formatação do programa de governo da candidata petista.