Título: Brasil procura aliados para evitar sanções ao Irã
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 13/04/2010, Internacional, p. A13

Um pouco mais isolado depois que a China e os Estados Unidos começam a se entender sobre possíveis sanções ao Irã, o Brasil foi mais uma vez cobrado ontem pelos americanos a apoiar as retaliações ao país persa e buscou uma estratégia unificada com a Turquia, outro país que ocupa cadeira rotativa no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que também defende uma solução negociada para a crise.

A abertura oficial da cúpula de segurança nuclear, que reúne líderes de mais de 40 países em Washington, foi aberta apenas à noite, com um jantar oferecido pelo presidente americano, Barack Obama. O tema oficial do encontro é pouco controverso: o que os países podem fazer para evitar que materiais nucleares terminem nas mãos de grupos terroristas. Mas o assunto que dominou os encontros bilaterias entre os países foi as possíveis sanções ao Irã, que supostamente desenvolve um programa nuclear clandestino.

O encontro mais esperado foi o de Obama com o presidente da China, Hu Jintao (leia abaixo). Houve alguma sinalização dos chineses - que têm poder de veto no Conselho de Segurança - de que podem apoiar sanções ao Irã, ainda que mais suaves do que queriam os americanos. Outro membro permanente do conselho, a Rússia, já sinalizou a possibilidade de acordo na semana passada.

O Brasil é um dos três países que ocupam cadeiras rotativas no conselho que relutam a impor sanções, ao lado de Turquia e Líbano. No início da tarde, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi cobrado pelo seu colega americano, Robert Gates, sobre a posição brasileira, em encontro para a assinatura de um tratado de cooperação militar entre os dois países. "Ele manifestou a posição dos americanos", disse Jobim. "E eu disse que a posição dos brasileiros era de esgotar as negociações."

No fim da tarde, o presidente Lula recebeu na residência oficial do embaixador brasileiro em Washington o premiê da Turquia, Recep Erdogan, e conversaram sobre o assunto Irã "bastante longamente", segundo relato do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, presente ao encontro.

"Tanto a Turquia quanto o Brasil são países que não querem ter armas nucleares e que defendem que o Irã pode ter programas para fins pacíficos, dando garantia de que não há desvios de suas pesquisas ou desenvolvimentos para fins militares", disse Amorim.

De concreto, disse Amorim, os dois líderes resolveram aproveitar o encontro para procurar outros países que possam apoiar uma solução negociada. O próprio Amorim deve estabelecer uma estratégia em conjunto com o chanceler turco para desenhar um modelo que possa receber apoio internacional e, mais adiante, ser levado ao Irã e aos EUA.

Amorim disse que uma solução poderia tomar como base a proposta da Agência Internacional de Energia Atômica, que previa que o Irã entregasse urânio enriquecido a 3,5% para um país com tecnologia nuclear enriquecê-lo. O acordo não foi adiante porque o Irã queria que a troca de urânio fosse simultânea, enquanto que a agência queria que o Irã primeiro entregasse seu urânio para, depois de enriquecido, recebê-lo de volta. Amorim sugeriu que um país neutro fizesse a troca de urânio. "Pode ser o Brasil, mas seria mais prático um país da região", afirmou.