Título: Iniciativa do Brasil e da Turquia quanto ao Irã não demove Obama
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 14/04/2010, Internacional, p. A9

O presidente Lula se juntou ontem ao primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, para tentar convencer o colega americano Barack Obama a dar uma nova chance para uma saída negociada à crise em relação ao programa nuclear do Irã. Os Estados Unidos não apoiaram a ideia, e seguem a sua cruzada para tentar aprovar sanções econômicas no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas, por outro lado, não se opuseram à iniciativa dos dois países.

"O presidente Obama não vê nada de negativo em que se tente uma solução negociada", informou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que integrou a delegação brasileira na reunião de cúpula de segurança nuclear realizada nos dois últimos dias em Washington, com a participação de líderes de 47 países.

O encontro entre Lula, Obama e Erdogan durou apenas 15 minutos e foi acertado de última hora. Anteontem, Lula recebeu Erdogan na embaixada brasileira e, no encontro, decidiram fechar uma proposta comum para ser apresentada aos Estados Unidos e ao Irã. Os dois países ocupam assentos rotativos no Conselho de Segurança e têm defendido uma solução negociada para o impasse.

Não estava previsto nenhum encontro de Lula com o presidente americano, que manteve uma intensa agenda com vários dos líderes estrangeiros que estavam em Washington. Anteontem à noite, Lula e Erdogan procuraram Obama no jantar de abertura da reunião de cúpula e pediram para que fosse marcado um encontro conjunto. Ficou acertado que seria aberto um lugar na agenda no dia seguinte.

Pela manhã, os integrantes da comitiva brasileira se negavam a confirmar o encontro, porque havia o risco de ele não ocorrer. Obama decidiu conversar com Lula e Erdogan logo depois de um encontro bilateral que ele teve com o próprio primeiro ministro da Turquia.

Quando Lula entrou na sala, o tema Irã já havia sido colocado pelo colega turco. Os dois países, segundo relato de Amorim, reafirmaram que devem ser garantido o direito de o Irã desenvolver programas nucleares para fins pacíficos e pregaram uma solução negociada. "O presidente Lula disse que as sanções teriam um efeito contrário ao desejado", relatou Amorim.

O presidente Obama, sempre segundo Amorim, fez um relato das tentativas de negociação empreendidas pelos Estados Unidos com o Irã. Mas não se opôs a uma tentativa de negociação brasileira e turca "até porque não cabe a ele dizer nada sobre isso".

O esforço brasileiro não alterou em nada a agenda americana. Ontem mesmo Obama disse, em entrevista de encerramento da cúpula, que negocia que as sanções econômicas ao Irã sejam impostas rapidamente.

No encontro com Obama, o Brasil e a Turquia não apresentaram nenhuma proposta de negociação com o Irã, até porque ainda não existe nada acordado. Os dois países ainda estão discutindo o assunto. Anteontem à noite, Amorim se encontrou com o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, para tentar fechar uma posição comum. No sábado, os dois voltam a conversar no Brasil.

O Brasil têm sua própria proposta, que tomaria como base uma tentativa fracassada da Agência Internacional de Energia Atômica. Na ideia que não deu certo, o Irã entregaria urânio enriquecido a 3,5% para um país com tecnologia nuclear para enriquecê-lo até 20%. O acordo não foi adiante porque o Irã queria que a troca de urânio fosse simultânea. Já a agência queria que o Irã primeiro entregasse seu urânio para, depois de enriquecido, recebê-lo de volta.

O Brasil propõe que um país neutro, provavelmente a Turquia, receba o urânio do Irã. O material ficaria sob a sua guarda até que que o país persa receba de volta o urânio enriquecido a 20%, que permite o uso apenas para fins pacíficos. O urânio deve ter um enriquecimento acima de 80% para ser utilizado na construção de armas nucleares.